vendredi, mai 27, 2005

Caderno de campo - conseil du quartier 20éme

Oi, Mello

Fui hoje lá pra reunião do conselho de moradores de Belleville, numa escola na rue Etienne Dolet, paralela à rue Menilmontant. Cheguei um pouco cedo e andei por ali, que lugar interessante. Paris só tem estrangeiros mesmo. Caminhei seguindo o trottoir com todos aqueles bazares árabes em busca de um chá verde (salvei meu estômago com ele) e vi, em um beco, uns homens agrupados diante de uma pequena porta. Imaginei mil coisas relativas ao universo masculino que conheço: ou havia ali uma TV transmitindo algum jogo, ou era um puteiro, ou alguma outra coisa qualquer sendo vendida. Era um bequinho. Continuei até a loja, comprei o chá de um argelino e, quando voltei pelo mesmo caminho, olhei novamente pro beco. Lá estava a turma toda ajoelhada de frente pra Meca.

A reunião começou pontualmente às 19:00. Ela acontece a cada 3 meses, e a transcrição que li com o Cefai na Mission de La Democracie Local havia sido gravada na última, qui a eu place en février. Cheguei uns dez minutos antes, fui falar com a Marion e fiquei ali vendo as pessoas chegarem. De repente entrou um senhor apertando a mão de todo mundo. A minha, inclusive. Era o maire do 20 éme, um político. A Marion assinalou isso.

Havia uma mesa enorme, onde foram se sentando os membros da diretoria do conselho, pessoas engajadas na Democracie Locale e da Mairie. Estava também na mesa o Raul Velasco, o artista plástico que conhecemos naquele domingo. Às 19:05 começou a reunião, com mais ou menos 40 pessoas. Antes das 20:00 a sala já estava repleta. Algo em torno de 80 pessoas de ambos os sexos e idades. Cada um foi chegando sozinho, como bom franceses que são. A pauta de discussão foi basicamente o Plano Locale d'Urbanismo (PLU) Uma secretária adjunta do maire apresentou o plano com o seu datashow, dizendo em seu preâmbulo que a Mairie entende o papel decisivo do quartier de Belleville na questão do logement social.

Do material que ela projetou, anotei algumas coisas: o PLU foi deliberado em 2001, quando fizeram o tal diagnóstico, entre outubro de 2001 à abril de 2002. Em 2003 começaram os debates sobre o projeto, mas a elaboração das propostas locais já estavam em andamento desde setembro de 2002, e seguiram até novembro de 2004, ano em que começaram a fazer a imprescindível enquête. Tudo isto, quer dizer, o plano, segundo o discurso da Mairie, teve sempre como objetivo "reduzir as desigualdades sociais".

A partir de então começaram a aparecer mapas no telão. Primeiro foram mostrados os projetos urbanísticos destinados às portas de Lilás, Montreuil e Vincennes. Tive problemas com a compreensão nesse momento, porque estava anotando e ela estava dando muitas referências de cada uma dessas portas - dommage. Depois entrou em cena mais outro mapa; este mostrando Paris dividida em 11 zonas, 07 POS de quartiers, 10 zones UO e 43 PAZ. Não faço idéia do que tratam essas siglas, e em seguida vieram muitas e muitas outras. Mas o segundo mapa mostrava Paris dividida em outras 04 zonas: Zonas
Verdes (praças e parques), Zonas Naturais (os bois de Bologne e vincenne), Zona Urbana de Grandes Serviços Urbanos (com hospitais, indústrias, comércio) e Zona Urbana Geral. Em seguida, ela apresentou outro quadro mostrando o COS (Coeficiente de Ocupação do Solo), onde aparecia uma Paris em que o Oeste e o Centro são identificados como áreas eminentemente residenciais, e o Leste e o Norte como áreas mais "embaraçadas", diante do quadro das classificações da Mairie.

Tudo isso para mostrar à audiência, imagino, como a cidade é pensada, em que termos e com quais propósitos, para em seguida conduzir a apresentação para o foco de interesse dos que estavam ali: os moradores de Belleville. Só uma nota: perguntei pra Marion se os muçulmanos, os chineses e os outros tantos grupos que moram ali participavam dessas reuniões, mas pas de tout. Continuemos, pois. Em relaçào ao quartier, foram projetadas fotos de batiments com vocações específicas, como, por exemplo, o 104 da rue de Coronnes, cuja vocação é para o abrigo de ateliers. A secretária enfatizou que caso ela seja um dia vendido, ainda assim será obrigatoriamente destinado para esse fim. Entráramos, então, no universo assegurado pelo label 'Proteção das Formas Urbanas e Patrimônio Arquitetural'. Mais siglas
vieram: TMP (Traitement Morphologique Particulieres), ou seja, "filets de hauteur" e volumétrie existente à conserver, quer dizer, proteçào dos espaços verdes internos, das cours, como formas urbanas a serem preservadas inclusive pelo seu teor de importância social, ou seja, é na cour que há um convívio entre moradores, uma troca, o que talvez impeça prejuízos psicológicos, surtos psicóticos.

Nesse momento, passou por mim uma lista de abaixo assinado para a abertura de uma passagem entre a rue des Cascades e a rue de la Mare. O pedido era promovido pela La Bellevilleuse, Les Coteaux de Belleville e pelo Les Ateliers d'Artistes de Belleville, que pretendiam com isso "rétablie la situation initiale prévue par le projet: que le public puisse fréquenter le jardin Simone Signoret et q'un gardier de square soit embauché pour assurer la sécurité des lieux".

A secretária adjunta continuou sua apresentação mostrando os imóveis a serem protegidos: um na esquina da rue de Belleville com rue de Tortille, outro no coin de r. de Belleville com Rebeval, o 38 da rue de Belleville, um no coin de Rue des Savies com Cascades, o 5 rue Ernest Lefévre, 116 quai Kennedy (Radio France). As formas de abertura das janelas, o comércio au rés de chaussés e outras características que denotavam construções do século XVI e XVII foram assinalados como aspectos importantes a serem preservados no bairro. E ainda o chamado Setor de Maisons et Vilas, onde estavam sob proteção as cours, de maneira a guardar também uma volumetria específica (certamente é ignorância minha, mas não sei a que se refere essa volumetria: se à densidade, se à chuva, se ao verde, não sei).

Outro item, introduzido pelo interior, era o chamado Proteção da Paisagem Urbana: respeito às normas de construção, às posturas do quartier. Mais mapas e também plantas com medidas de altura de telhado, "pé direito" (eu acho) e andares. A cour novamente entrou nas observaçòes, como sendo necessário proteger o chamado "espaço verde interior". Para o verde surgiram mais siglas: EVP (espace vert à proteger), ELV (espace libre à vegetalizer), ELP (espace libre à proteger) e EAL (espace à librer).

Depois de tudo, foi dito ainda que os moradores podem acessar o plano pela internet e, ainda, terão disponíveis no outono o bilan dessa última enquête feita no quartier. Outra nota: a secretária disse que as pessoas poderiam endereçar suas dúvidas e sugestões em seu próprio nome, mas que era sabido e notório que o peso do coletivo era muito maior. Dito isso, um dos membros do conseil lembrou que "as pessoas têm mania de reclamar, mas se esquecem sempre do mais importante: de dizer o que estão querendo".

Os presentes então começaram a fazer perguntas. A primeira que surgiu foi sobre um estacionamento de velô. Outra foi sobre como proteger os espaços verdes, outra sobre os subsolos dos batimentes de Belleville. Houve ainda uma crítica sobre a preservação de um dos lados da rue de La Villete (o lado que pertence ao 20) em relação ao lado que pertence ao 19.

O mesmo homem que falou das reclamaçòes de muitos moradores criticou também os arquitetos: "Eles têm uma visão muito reduzida dos usos do bairro". Também me chamou a atenção como que a vida do quartier, os seus usos e a arquitetura em cada rua foram expostas com tanto conhecimento pelos que expuseram suas opiniões. Parecia haver uma relação íntima dos moradores com o bairro. Mas eu queria dizer que em nenhum momento um ou outro grupo foi mencionado, quer dizer, acusado por qualquer tipo de mazela do bairro. Minutos antes eu estava vendo alguns muçulmanos rezando de frente pra Meca - ou de costas pra Jerusalém? Umas africanas carregando seus filhos em tipóias. Pensei também muito na Cruzada, e pensei também na reunião da Regional Sul da FAM-RIO e do Congresso da Federação. Nessas as acusações ao outro são frequentes. Aliás, não existe reunião ali em que não haja alguém para se atirar "culpas".

Havia uma mesa onde estavam dispostos vários papéis sobre o bairro, jornais, folders e, o mais supreendente, um convite feito pela Mairie do 20 com a pauta da reunião de hoje. Peguei todos.

Falei pra Marion que vou tentar escrever algo sobre essa reunião de hoje e trocar com ela algumas impressões. Vai ser uma boa oportunidade para ter o retorno de alguém que milita nas associações de quartier de Paris.

Amanhã vou fazer um exame médico e quando voltar, vou tentar falar com você, ok?

Um beijo, boa noite
Soraya

3 Comments:

Blogger ipaco said...

Tô gostando de ver, madame! Trabalho de campo em Bellville... vai ser legal comparar com as suas anotações daquelas reuniões da Cruzada, não é mesmo? Aquele uso da reunião para desabafar coisas pessoais, uma aparente "irracionalidade" no uso do síndico como pára-raios etc e tal.

Sô, minha saudade é do tamanho do Brasil e da França juntos.

Beijim
pets

PS: Manda um beijim pra Marion (é a Krassik, não é?).

4:01 PM  
Blogger ips said...

Não, PT, é outra Marion. Olhe, vou te dizer: o mais legal disso que se chama 'pequeno' exercício etnográfico é justamente abrir as portas para compreensões mais profundas - que aí saem do âmbito de um comparativismo puro e simples - e menos óbvias - que aí obrigam a abandonar aquilo tudo que a gente traz pronto do lugar de onde vem. Esse 'pequeno' exercício é na realidade um grande e verdadeiro exercício de humildade e de abertura pro mundo, que põe rédeas nos deslumbramentos pueris.
Acho que o que teve ali naquela reunião, entre muitas outras coisas que não vou te encher agora, é uma racionalidade assustadora, cujo melhor exemplo é o próprio metrô dessa cidade. Tem também sutilezas, pra mim, do reino do espírito, cujo melhor exemplo é a grama aqui se chamar pelouse! Tem todo um mundo singular e complexo de significados, aqui, aí, em qualquer lugar do mundo, que a gente apreende vendo coisas como "cour", como "salão de bagunça"; fenômenos também linguísticos, sinédoques (agora peguei pesado) que apresentam pra gente um mundo onde o suposto se revela pelo insuspeito, você me compreende?
E tem, pra tudo isso, os concertos gratuitos, a praia aí, o rio aqui, o toque, temperaturas, luzes, o contato do olhar e....o SIMMEL.

5:56 PM  
Blogger ipaco said...

Amore, não estou falando de um comparativismo puro e simples, sobretudo sabendo, ou intuindo ou supondo, a experiência extraordinária que vc está vivendo neste momento ao abrir essas portas todas. Concordo com o que vc diz sobre o pequeno exercício etnográfico que é na verdade um grande exercício de humildade. Comparar é só uma coisinha a mais e que, pelo menos pra mim, ajuda a brincar com aquelas coisas de identidade, alteridade e o escambau, mas que pra mim sempre foi essa sensação insuportavelmente maravilhosa de amplidão dos sentidos do universo humano. Por isso, viajar sempre tão fundamental na minha vida.

beijim

9:24 PM  

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