Chez Comte, comme les positivistes!
Hier: rendez-vous Groupe Sociologie Politique et Morale, coordené par Luc Boltanski et Thévenot. O GSPM funciona na casa onde morou Auguste Comte, na rue Monsieur Leprince, número 10. Cheguei cedo, passei antes no Moutons au Cinq Pates pra ver uns casacos, uns lenços, enfin, faire mon poche se rendre compte de sa prochaine douleur!... E embaixo da casa do ícone inspirador da nossa república brasileira, uma lojinha de Acunpuntura. Entrei lá. Eram três senhoras chinesas na linha de frente, sendo que uma delas parecia ser a mãe. Dediquei todo o meu esforço para perguntar àquela senhora se, por acaso, havia ali algum livro que pudesse tratar de uma "maladie" que eu não sabia ao certo o nome em francês, mas que ainda assim tentei lhe explicar os sintomas usando como mediador de nossa suposta conversa o meu francês macarrônico. A senhora ouviu tudo, não sei se atentamente - os chineses sempre me dão uma sensação de incógnita - e, quando finalmente terminei minha explanação, descobri que ela não passara de um monólogo: a velha chinesa apenas balançou a cabecinha, como quem diz: "eu não entendo bulhufas de francês". E pensar que nesse dia eu havia almoçado com dois jovens chineses no restô da cité universitaire. O diálogo: "xi xing mi phu foo xu yang li". E de repente, não mais que de repente, um dos dois, não importa qual, soltava um "risinho", pois assim é que é. Impossível estabelecer qualquer conexão.
Mas perdi a noção do tempo. Saí de lá correndo e entrei na casa do Comte. Perguntei ao pintor pelo ms. Marc Breviglieri, e ele me recomendou que fosse subindo as escadas. Não estava entendendo nada daquele local, até porque até agora pude ver que até as horas os franceses informam errado - embora eu não goste de generalizações, isso aconteceu aos montes. Mas, enfim, sou brasileira: chupo cana e assobio. E cheguei lá.
À parte a ambiência, que está aqui gravada em minha mente, a retórica é demasiada para mim. A ambiência me toca na alma. O clima é individuoland. Tenho aprendido aqui mais do que pudesse ousar imaginar. A politesse do bonjour, bon soir e bon journée definem bem as relações. Fico desembaraçada dos sorrisos além desse segundo que a norma exige. Aliás, a norma aqui exige muito e sempre, de maneira a que o tal do indivíduo possa se manter íntegro na sua condição de ser único, pero igual. Só vivendo. Boltanski acredita que é assim no mundo todo. Seus seguidores também parecem que pensam assim, e alegam cegamente que qualquer homem é capaz de sofrer e de se sentir injustiçado, pero não compreendem que os sentimentos de injustiça dependem de uma compreensão de si próprio, de uma condição. Foi preciso dizer que havia ali um positivismo talvez emanado pelá alma penada de Comte, mas não disse. Disse só que talvez por ser brasileira eu pudesse compreender perfeitamente o que a formidável italiana ali dizia sobre a Itália, depois de uma viagem que passou pela Cidade Celestial de Santo Agostinho até o mundo 1984 de George Orwell. Mas não, o francês do GSPM não compreende que esse indivíduo cidadão só existe aqui. Que fora daqui a gente se demanda como parte de uma família da qual é praticamente impossível se desembaraçar, que temos ou não temos "berço". E que precisamos, catolicamente, dar aos pobres e descobrir que nossos pretos são limpinhos. E que andamos mais cheirosos do que nossos irmãos daqui porque temos uma mucama pra lavar nossas roupas toda semana e limpar nossos banheiros com a destreza de um cirurgião. Somos muito diferentes. E a principal diferença é que eu (brasileira) sei disso, mas eles (Boltanski e Pataroni, pelo menos) não sabem! Incroyable. Parece que estou constantemente sob o efeito do caapi aqui.
É preciso dizer que eu só me lembrava do Isaac Joseph ali, naquela sala hermeticamente fechada e silenciosa (os franceses são essencialmente diádicos, sabe, antropólogos?). Lembrei quando o Isaac acabou dizendo ao boltanski que estava muito mais interessada na forma como as pessoas roncavam à noite do que no "Novo Espírito do Capitalismo". Eu me senti com ele ali. Até porque havia atrás de mim uma foto do Isaac e outra do Mello, ambos rindo muito. Eram as únicas fotografias daquele laboratório. E logo de quem??!!!! Isaac e Mello, o que há pra mim de mais sólido e ousado em todo esse mar de pensamento e de retórica, aqui e acolá.
Não dá pra não acreditar em nada. Não posso ser cética mesmo.
Isso é a vida. É preciso ter olhos de ver.
Mas perdi a noção do tempo. Saí de lá correndo e entrei na casa do Comte. Perguntei ao pintor pelo ms. Marc Breviglieri, e ele me recomendou que fosse subindo as escadas. Não estava entendendo nada daquele local, até porque até agora pude ver que até as horas os franceses informam errado - embora eu não goste de generalizações, isso aconteceu aos montes. Mas, enfim, sou brasileira: chupo cana e assobio. E cheguei lá.
À parte a ambiência, que está aqui gravada em minha mente, a retórica é demasiada para mim. A ambiência me toca na alma. O clima é individuoland. Tenho aprendido aqui mais do que pudesse ousar imaginar. A politesse do bonjour, bon soir e bon journée definem bem as relações. Fico desembaraçada dos sorrisos além desse segundo que a norma exige. Aliás, a norma aqui exige muito e sempre, de maneira a que o tal do indivíduo possa se manter íntegro na sua condição de ser único, pero igual. Só vivendo. Boltanski acredita que é assim no mundo todo. Seus seguidores também parecem que pensam assim, e alegam cegamente que qualquer homem é capaz de sofrer e de se sentir injustiçado, pero não compreendem que os sentimentos de injustiça dependem de uma compreensão de si próprio, de uma condição. Foi preciso dizer que havia ali um positivismo talvez emanado pelá alma penada de Comte, mas não disse. Disse só que talvez por ser brasileira eu pudesse compreender perfeitamente o que a formidável italiana ali dizia sobre a Itália, depois de uma viagem que passou pela Cidade Celestial de Santo Agostinho até o mundo 1984 de George Orwell. Mas não, o francês do GSPM não compreende que esse indivíduo cidadão só existe aqui. Que fora daqui a gente se demanda como parte de uma família da qual é praticamente impossível se desembaraçar, que temos ou não temos "berço". E que precisamos, catolicamente, dar aos pobres e descobrir que nossos pretos são limpinhos. E que andamos mais cheirosos do que nossos irmãos daqui porque temos uma mucama pra lavar nossas roupas toda semana e limpar nossos banheiros com a destreza de um cirurgião. Somos muito diferentes. E a principal diferença é que eu (brasileira) sei disso, mas eles (Boltanski e Pataroni, pelo menos) não sabem! Incroyable. Parece que estou constantemente sob o efeito do caapi aqui.
É preciso dizer que eu só me lembrava do Isaac Joseph ali, naquela sala hermeticamente fechada e silenciosa (os franceses são essencialmente diádicos, sabe, antropólogos?). Lembrei quando o Isaac acabou dizendo ao boltanski que estava muito mais interessada na forma como as pessoas roncavam à noite do que no "Novo Espírito do Capitalismo". Eu me senti com ele ali. Até porque havia atrás de mim uma foto do Isaac e outra do Mello, ambos rindo muito. Eram as únicas fotografias daquele laboratório. E logo de quem??!!!! Isaac e Mello, o que há pra mim de mais sólido e ousado em todo esse mar de pensamento e de retórica, aqui e acolá.
Não dá pra não acreditar em nada. Não posso ser cética mesmo.
Isso é a vida. É preciso ter olhos de ver.

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