vendredi, mai 13, 2005

Cooperação Internacional 447/04

Ontem fui desviada do meu plano de estudo primaveril sob as árvores do Montsouris porque no meio do caminho havia uma cabine telefônica, e eu liguei pro meu orientador, monsieur Merlot Cavernet. Après le prémier "bonjour", il m'a dit: "Anota aí". Terminava ali minha promenade. Às 15:00 fui pro Mission de la Democracie Locale, participar de uma reunião sobre o conselho de moradores de Belleville, convidada pelo meu co-tutor de tese aqui na França, monsieur Daniel Cefai. Que sujeito bacana, generoso e simpatissíssimo.

Muitas coisas me chamaram a atenção nesse primeiro dia que eu já passei a considerar como o de início do meu trabalho de campo aqui. A primeira delas é o envolvimento participativo mesmo de pessoas jovens em tudo o que diz respeito à vida política da cidade, do país e da união européia. Não preciso nem ir muito longe. Basta ver como funciona uma associação de um dos 20 arrondissements de Paris. Outra coisa que me tocou foi a dinâmica desse nosso encontro, porque o Daniel simplesmente pegou a transcrição da última reunião do conselho, com suas quase 50 páginas de discursos os mais variados, e foi ponto por ponto chamando a nossa atenção para os argumentos dos habitantes, para as estratégias retóricas, a entrada dos "atores" importantes que articulam o jogo com o poder público, a remissão ao espaço local do bairro, a citação dos problemas locais, a tentativa de generalizá-los através do tal repertório de argumentação. Meus amigos da UFF: in loco eu pude ver que o cara é realmente de uma generosidade sem par. É o "Arènes publiques et la retorique du bien commun" e mais alguma coisa, pois que com o par de olhos doces e azuis para completar a explanação. Havia ainda mais um dado que não deixei passar em branco: notei que a transcrição de apenas um lado da fita K7 tinha dado 21 páginas de discursos, quando que uma reunião na Cruzada, um lado dava apenas, quando muito, 10 páginas. Comentei com o Daniel. O problema é que lá na Cruzada todo mundo fala ao mesmo tempo, e não demora cinco minutos a porrada começa a rolar verbalmente e os dedos começam a se levantar na frente dos narizes alheios. A moeda da incivilidade é realmente legitimada nessas arenas, de uma forma ilustrada assez sinteticamente pela velha "lei de gerson". Tipo: "deixa aquele desgraçado fazer primeiro o que é proibido porque aí eu vou lá e faço igual, porque eu também quero me dar bem, e ai de quem tentar me impedir, porque eu não sou otário, e quero saber primeiro do meu pirão".

A mais gritante diferença entre o público daqui e a coisa pública da gente no Brasil é essa. Aqui todo mundo é socializado - há mais de 200 anos - para se saber integrado e fundamentalmente responsável por um interesse que se traduz como coletivo. Chez nous, par contre, o público é o espaço onde a gente vai para tirar uma lasquinha. Talvez não seja exatamente isso, mas que ele é visto como uma batata quente que não se deve tocar demais (ou se deve devorar com todos os dentes), lá isso é. E aqui, por outro lado, nêgo se vê como parte constitutiva mesmo.

Acontece que depois de tudo tive o prazer de receber de presente um "parcour commenté" de Cefai pelo Marais e pela rue Ramponeau, em Belleville, onde vimos uma negociação de tráfico na base do maço de notas de 20 euros. Perguntei pro meu co-tutor que droga cara ela aquela, e ele me disse que devia ser a heroína. Pô! Em Portugal o gajo me pediu só 5 euros pruma dose! É mais fácil pegar um trem pro Porto do que se picar em Belleville, quand même!

De resto, continuo flanando um pouco, e escrevendo muito. Julien voltou há cinco dias e há dois dias nos encontramos em Montmartre. Ele arrumou um studio ao lado da Sacre Coeur, com todo o silêncio do mundo e perto de toda aquele burburinho que há ali por perto, com a vista da colina e o verde das pequenas ruelas lá de cima. É quase vizinho do falecido Erik Satie, vejam só que maravilha! Depois dum "HLM" indiano, comemos num tailandês de impressionar lá em Belleville, na esquina de Monsieur Merlot. Quel plaisir, mes amis.

E é por isso que eu vos darei o prazer de regarder-lá dois dos responsáveis por esse acordo Capes-Cofecub, responsáveis igualmente pela orientação da minha tese de antropologia urbana, e responsáveis certamente ainda pelo parto de muitas percepções que atualmente povoam esse mundo de mobilidade e de échange culturel: Cefai e Mello, ontem, num jantar na casa da Patrícia onde estavam todos que eu conheço aqui em Paris: kétia, kátia, augustin, mello, cefai e michel misse.

Parfait! Merci beaucoup, mon angel de la guard!