samedi, mai 07, 2005

Moi, la flaneuse

É muito fácil viver aqui em Paris. Primeiro porque a cidade é um convite constante. Ainda mais na primavera, quando a vida explode por todos os lados. Segundo porque se não for a pé, vai-se de trem ou de metrô, e é praticamente impossível se perder aqui com essa logística tão sofisticada desenvolvida para o sistema de transportes. Sabe a história da flanerie? Ela também floresceu possibilitando outras tantas formas de locomoção para o flâneur moderno e na cidade em expansão. Paris é um tesão. E a prova disso é que ontem acordei, coloquei casaco e cachecol e saí para conhecer o Parc Montsouris, bem aqui em frente à Cité... e não consegui parar. Fui indo, num eterno gerúndio. C’est printemps, é primavera, e a vida anda explodindo a cada passo. Sem exageros. Acho mesmo que entendo porque aqui grama se chama pelouse: a natureza se manifesta tão exuberante nessa época...é de chorar. Muitas cores, pequenos insetos, muitas flores plantadas e voando, caindo das árvores e sendo levadas pela brisa leve e fria que não cessa. Elas e os pássaros são os que se responsabilizam pela vida que se suspende no ar. E há pássaros pra todo lado, como donos dos jardins. E há jardim o tempo todo. Até mesmo os prédios ficam barbudos na primavera. O meu vizinho está assim: cheio de trepadeiras gordas e bem verdes.

Vou dar um breve résumé do meu parcours d’hier (se você arrumar um mapa de Paris na Internet vai ter noção do quanto andei). Mas se você quiser pular todo esse parágrafo único, não se constranja, porque com ele vou aproveitar e guardar pra mim também algumas impressões. Aliás, tirei o dia de hoje só pra isso, porque metabolizo muito devagar as experiências.

Bem... sai do Montsouris pelo outro lado, na Avenue Rene Coty. (Atenção: imagine que tudo é arbotizado e que a arquitetura da cidade inteira é extremamente harmônica). Nela há umas escadas que levam até pequenas ruas, no alto. Subi em uma e saí na Saint-Yves, virando em seguida na pequeníssima rue des Artistes, com grandes portas coloridas e janelas generosas através das quais pude ver como vive bem alguém com a minha idade e estilo de vida. A rua é um silêncio. Eu gosto. O XIVéme tem tudo a ver comigo, é basicamente residencial, nem um pouco turístico, e tem essa vida diversa sugerida pela cité, onde vive gente de tudo que é canto do mundo. Voltei dali para a Av René Coty e continuei até a rue D’Alesia, um pouco maior e com um bom comércio. Ali decidi fazer um teste: entrei numa lavanderia para pedir informação sobre imobiliárias. A mulher me indicou com toda gentileza. Cheguei na imobiliária e a mulher também me atendeu numa ótima. Saí e fui até o florista comprar gerânios, e ele não só me atendeu bem como descobriu o meu sotaque brasileiro. Era português! Ricardo. Dali fui até a farmácia comprar soro pro nariz e, também lá, colhi mais um sorriso bacana. E ainda encontrei uma loja de bicicletas novas e usadas. Entre 20 e 30 euros uma boa bicicleta holandesa, com cestinha e marcha. Beleza: segunda-feira eu compro pra ir ver o Thévenot à tarde numa sala da École, junto com o Mello. Mas continuei até a Place Victor et Helene Basch, de onde entrei na Avenue du Maine. É exatamente nesse cruzamento que fica um restaurante chamado Le Dome, que me fez lembrar a Glória. Mas, enfim, não parece nada. Mais à frente entrei à direita, numa pracinha onde uns caras estavam jogando petanque (uma espécie de bocha ou malha). Em frente, a Mairie do XIVéme, quer dizer, a prefeitura do arrondissement. Saí pela lateral, em frente à École Erik Satie, e segui até a Rue Daguerre. Essa estreita e longa rua é cheia de hotéis pequenos e baratos (51E o casal é barato) e muitos cafés e alguns petits restaurantes paquistaneses e iranianos – e embora esse bairro não seja, nem de perto, como Belleville. Dali segui reto até chegar novamente à Av. du Maine e dar de cara no Comissariat de Police, onde eu fui me informar para tirar o “titre de séjour”, obrigatório pra quem vai morar aqui. É o anjo da guarda, literalmente, trabalhando até no momento da flanerie. Nessa avenue, no fim, a gente vê a tal Tour de Montparnasse, um prédio enorme, acho que o mais alto da Europa, que pra ser construído destruir um pedação do 14 arrondissement. Foi um crime, de fato, porque é um tiro preto pro alto, uma agressão. Um pouco mais à frente, atravessei à direita e entrei no Cimetière du Montparnasse. Logo que cheguei, encontrei o Tristan Tzara, e sobre sua tumba um livro sobre vampiros, da Anne Rice, uma escritora americana. Eu peguei aquele livro, achando que faria algo com ele. Quis, na verdade, criar um sentido pra esse pequeno furto, achando por alguns instantes que isso me levaria a algum lugar. Já cansada de carregar aquele livro, acabei depositando-o sobre a tumba de um tal Auguste Pinel, ex-combatente francês. Sei lá...alguém talvez continue a dar sentido a esse quê totalmente desprovido de. De repente, uns jovens fotografando uma tumba. Era a de Baudelaire. Sobre ela, uma garrafa de absinto e dois livros de autores desconhecidos. Quiçá Baudelaire não pudesse dar uma mãozinha? A tumba era um verdadeiro despacho. E eu pensei seriamente em pegar aquela garrafa. Mas prossegui peregrinando, em plena primavera, pelo lugar dos mortos. Os corvos é que tomam conta daquele ambiente. Eles cruzavam e minha frente como pombos, e eu não sei realmente o que atrai essas aves para aquele território. Eles ficam por ali, pretos, enormes, velando. De vez em quando soltam um grito. É sinistro. Queria achar a tumba do Durkheim pra me sentir segura. Ele estava em algum ponto da área dos judeus. Há ali duas áreas para judeus, mas como os túmulos são quase todos semelhantes, acabei não encontrando Durkheim, mas perto dali, a Simone de Beauvoir e o Sartre. Sentei perto deles, na tumba vizinha, para olhar o mapa mas um agent me pediu, muito educado, para me sentar num banco. Já estava de bom tamanho também esse passeio fúnebre.

Saí dali e entrei no Boulevard Raspail, uma via importante aqui da cidade, igualmente bonita, cheia de bancos para uma paradinha, livrarias especializadas (aliás é uma redundância enfatizar a existência de livrarias aqui ou acolá, porque elas estão por todos os lados) e, mais à frente, os prédios da Sorbonne, da École des Hautes Études, da Maison de Science de L’Homme. Ali encontrei a Aliança Francesa e entrei pra saber de algum curso rápido pra quem vient d’arriver. Acho que vou fazer um de duas semanas pra afiar a língua (157euros! Pra cá, barato.).

Continuei descendo e entrei na rue Vauginard, passei em frente ao prédio do Institut Catholique de Paris, na rue Dassas, e cai na grande rue de Rennes. Ali senti que havia chegado na região que se chama “badalada”, com umas pessoas bem vestidas, cheias de caras e bocas, cafés branchés (como se diz), lojas de tapetes caríssimos (3500euros), móveis, roupas. Desci por ela e entrei à esquerda numa rua também movimentada, mas menor e bem interessante, chamada rue du Vieux Colombier. Ali tem um teatro de mesmo nome, muito antigo, e talvez fora do circuito turístico. De lá avistei uma torre e me guiei por ela. Antes, passei no Carrefour de la Croixrouge (cruzamente da cruz vermelha), que me marcou porque ali tem uma escultura imensa do César (que também está em Montparnasse), de um centauro de ferro, feito com peças forjadas das mais diversas utilidades, mas que viraram sacos, músculos, pênis, dentes, línguas. E tudo preto, sobre um pedestal. Fantástico! Impactante. Talvez pelo erotismo e pelo porte do bicho.

Mas aí cheguei na Place de Saint Sulpice, onde estava a tal torre, e vi que esta era a da igreja de Saint Sulpice. Entrei, sentei e comecei a apreciar a grandiosidade, enquanto descansava um pouco. Parar depois de um longa caminhada chega a dar uma certa vertigem, uma “onda”, certamente por causa da endorfina que o corpo libera. E parando eu pude me dar conta de coisas que o caminhar não permite por causa do movimento, des choses qui passent - et se passent. Parada ali sai da minha ilha, embora ainda nela, e ouvi e respirei consciente disso: não era o meu mundo, mas, por que não, um mundo amigo? Fui ler sobre a Eglise Saint Súplice e descobri que a sua construção foi aprovada no dia do meu aniversário: 15 de agosto, só que de 1645, para ser a paróquia de Luxembourg. “Legal”. E na saída ainda vi em tamanho natural a reprodução do Santo Sudário, com uma breve explicação. O que impressionou mesmo foi ouvir os comentários dos franceses que paravam ali: “Incroyable”. Me deu uma sensação de que era uma informação nova. Talvez não. Talvez sim. Sei lá.

Saí pela rue de Seine na intenção de desaguar no rio. Andei mais um pouquinho e cheguei no Boulevard Saint Germain, onde passei em frente ao Marche Saint Germain de Pres. Fraco. Superficial, “vide”, como pensei nessa língua: vazio de alma. Tanto que em frente havia uma boulangerie (uma padaria) e entrei para comprar uma baguette. Estava DURA! Vi então que ali, no 6éme, estava em plena região das aparências. Muito rímel e pó de arroz, muitos perfumes e muito burburinho, o que nos coloca em pleno risco de levar gato por lebre.

Logo perto dali, porém, encontrei um lugar incrível. Realmente a cidade nos apresenta dessas surpresas inesperadas, para ser bem enfática. Sem contar que a cada cinco minutos de caminhada há uma estação de metro, um banco e um jardim, quer dizer, a cada cinco minutos a gente pode sentar, respirar ou simplesmente partir pra outro universo, dentro da própria Paris. Mas a surpresa era uma ruela bem pequena, que me fez abrir o mapa. Nele ela estava marcada com uma cor diferente, e eu ainda não sei porque. Mas esse pequeno miolo, essa ilhota, é composta por três ruelas: a Rue de l’Echaude, rue de L’Abbaye (abadia, como sugere o nome) e la Rue de Furstenberg. Em cada muro dali e mesmo do resto por onde andei, existem sinalizações, placas em pedra, indicando que “aqui morreu, assassinado pelos alemães, fulano de tal”. Entendo ainda mais o choro do Julien. Lá em Belleville eu vi, de madrugada, uma École Maternelle onde há também uma placa informando que ali, entre entre 42 e 44, as crianças nascidas judias foram raptadas pelos alemães e levadas para os “campos da morte”. Eu fotografei essa escola. Mas nesse miolo, além dessa memória mantida viva, há também dezenas de micro-galerias de arte, uma ao lado da outra, e livrarias especializadas em raridades caríssimas. A coleção dos livros com as cartas dos irmãos Grimm estava custando 1500euros. E essas três ruas praticamente não comportam a passagem de carros. Eles costumam passar pelas ruas maiores ao redor. É um miolo que tem ecos, você pode imaginar? E tem ali ainda o Musée Delacroix, mas tão discreto que não consegui sequer encontrá-lo. Falta um elemento importantíssimo pra você compor o seu quadro: os prédios aqui, esses prédios haussmanianos, como se menciona remetendo à época da reforma urbana, tem todos eles o que se chama de “cour”, quer dizer, atrás das grandes e pesadas portas de madeira ou de ferro e vidro que protegem a entrada, há uma passagem e logo em seguida uma espécie de praça privada, que são as “cours”. Quase todos os prédios aqui em Paris têm cour. A parte de trás deles é bastante acolhedora e agradável. Eu vi na casa do Augustin, mas depois - ou quiçá un jour - chego lá.

Bom, continuei ali, vendo o que esses franceses fazem de arte, vi coisas mesmo da “taille” de um Picasso, outras mais originais, mas todas muito boas. Isso é bem legal: está tudo na rua, as expressões todas estão expostas nas vitrines, ali ou em Belleville, no 19 e 20éme, e quem quiser entrar é bem vindo. Desde que, é claro, se chegue bem. Pensando nisso, ouvi um assobio. Olhei pra cima e me dei conta de que estava sendo paquerada.

Os franceses são muito paqueradores. Qualquer lugar é lugar pra um galanteio. Isso é lindo! Eu gosto de ver as pessoas namorando aqui. Tem um ar infantil, doce, delicado, brincalhão. Tem também a curtição da cidade, das gramas, dos cafés, da beira do Rio. E tem ainda a intimidade da casa. É uma graça.

Dali alcancei a rue Jacob e virei à direita novamente na rue de Seine. Passei por uma pequena place Pierne, e uns gatões de meia idade perguntaram se eu falava francês. Continuei andando. Perguntaram então se eu era espanhola. Aí mesmo é que continuei andando, porque me lembrei do Porto. Essa abordagem foi digna de observação. Quando se caminha, vai se indo num degradé pela cidade, pelos lugares, pelas horas, e vai se vendo, vivendo, o que realmente quer dizer essa tal de ecologia urbana e “regiões morais”, como diria o velho sociólogo de Chicago, o grande Ezra Park. A partir de um determinado momento, passei a ser abordada. O passeio começou a sofrer pequenas intervenções, porém facilmente resolvidas com a ostentação de um certo ar distraído, de quem não percebe nada. O importante nessas horas é não se deixar contactar pelo olhar. Não entrar no jogo. O olhar é um fio condutor.

Mas, on y continue! Passei pela pequena place Pierne, passei pelos gatões abordadores, e também por baixo do arco de uma passagem por sobre um bonito prédio. Esse verdadeiro portal me levou à uma esplanada esplendorosa, que é a Place de L’Institut de France. Ou seja, esse prédio bonito, acastanhado, de pedra, como todos, mas suntuoso, é o prédio da Academia Francesa de Letras. O reino desses caras que a gente gosta de ler ou conhece no Brasil: Levi-Strauss, Tocqueville, Anatole France, Bachelard, Berlioz, Pasteur. Estava, enfim, entre a Quai Malaquias e a Quai de Conti. Quai = Cais. E em frente, a Pont des Arts, que atravessei olhando toda aquela gente sentada no chão, pegando sol, bebendo vinho, cerveja, comendo, verdadeiros piqueninques sobre ou à margem do Sena. Cheguei em plena primavera, e pela vida intensa nas ruas e nos corações – pois que me parecem todos muito abertos –, eu posso imaginar o sofrimento do inverno.

Voltemos, no entanto, à marcha da Rive Gauche à Rive Droit! É que fiquei vendo aquela gente toda ali, cada um na sua, e me deu uma alegria...é o encanto da paixão. Saí da ponte e já havia mais um outro sujeito querendo fazer graça para chamar a minha atenção. Acontece que aprendi que local turístico não é dos melhores pra se dar trela. Existem neles umas combinações muito características, algumas armadilhas. É notório. E só fui aprender em Portugal, mesmo tendo trabalhado tanto tempo atentando para essas áreas, que em muitos lugares se caracterizam como áreas de prostituição, que muitas vezes denotam o espaço do turista também. Má quê! Me parece questão de experiência, do bom e velho – mas não tardio – abrir de olhos. Tem jeito não: podemos ser de um lugar sem necessariamente sermos dele, e podemos não se jamais nem mesmo do lugar do qual achamos que somos. C’est drôle. Tal sintonia fina, tal espírito, nos põe e tira dos riscos como se fôssemos marionetes de nós mesmos.

Bom, depois da ponte, ou melhor, do outro lado, estava um pequenos “jardin”, este tipicamente francês, ou ao menos daqueles jardins da corte de versailles: certinhos, domesticados, desenhados para o deleite e frivolidade de uma certa aristocracia. O nome do tal Jardin era Jardin de L’Infante, e, ainda distraída por ele e pela suntuosidade do bâtiment (do prédio), quase não vi que estava prestes a atravessar um grande arco para chegar, finalmente, na grandiosa Cour Carré, na traseira do Louvre. Só ali me dei conta de onde estava. Ou seja, se o Louvre fosse uma cobra, me picava. Quando saí de casa ontem não pensei em desembocar em nenhum lugar em especial. Só sabia que ia caminhar pelo Parc Montsouris. Mas, bom... a vida é cheia de surpresas mesmo. Como não podia deixar de ser, um violoncelo alcançou os meus ouvidos. Nos locais turísticos esses sons nos alcançam logo. Era um jovem rapaz em busca de alguns trocados. Mas não só isso: ele contribuía para a alma do local com a sua música e com um dos olhos que de vez em quando abria, apesar da face compenetrada, para ver quantos estavam a lhe observar e poder calcular o lucro entre um golpe de arco e outro. O menino era bom.

Passei dali pra Cour de Napoleon, onde está a pirâmide do Miterrand, quer dizer, a pirâmide do Louvre. “Bom lugar pra sentar e comer, finalmente, a minha baguette”, pensei. Bom mesmo porque eu estava faminta. E havia um sol. Comecei a olhar, sem conseguir pensar direito – o que deixei pra fazer agora: os turistas parecem formigas. Eles se movimentam excessivamente. E riem. Quando não estão rindo, estão mortos. Não estão nem cansados. Estão mortos mesmo. Talvez porque o turista opte por fazer fora de casa tudo aquilo que ele jamais faria, que não tem o menor interesse em fazer, e nem mesmo saberia por onde começar a fazer, ainda que estivesse no seu próprio habitat. Mas fora de casa ele se engaja nessa aventura, e aí você pode imaginar o dispêndio de energia. Outro dia caí sem querer na Ile de la Cite, ali onde está a Notre Dame, e também fiquei cansada só de ver. Entrei, claro, até porque tinha um corcunda cego na porta pedindo esmolas e eu fotografei ele. Parecia um sinal. Um sinal do quanto tudo isso é fantasioso. Enquanto eu estava sentada ali mordendo a minha baguette à Lyonnais (quer dizer, um sanduíche de salame com picles), passou de novo o cara das gracinhas. Imediatamente mirei numa belíssima escultura, no ponto mais alto que pude alcançar, e o cara esmoreceu e foi-se embora. Não pretendo voltar por aquela área nos próximos dois meses. Daí a idéia de aproveitar que estava ali e emburacar na reta que terminava, lá bem na ponta, com o Arco do Triunfo.

Já em frente ao Louvre, entre ele e o Jardin des Tuileries, il y a le Jardin du Carrossel, com um pequeno Arco também construído por Napoleão para os seus vitoriosos soldados. (O Julien disse que acha “marrant” essa coisa do heroísmo com o qual o francês estereotipado se traveste). Mas lá fui eu: cruzei o primeiro jardin, o segundo, até chegar na Avenue Champs Elysées. Nota rápida: o jardin des Tuileries também estava lotado de gente. E nele tem muitas cadeiras de ferro, bem confortáveis, que a gente pode colocar onde quiser pra dar uma relaxada. Normalmente as pessoas colocam perto das fontes e ficam ali, no sol e pegando uns respingos. Aproveitei e fiz o mesmo para poder abrir o mapa de me situar. Aí sim segui em frente. Quase no final das Tuileries eu comecei a ouvir, vindo lá de trás, um grupo de adolescentes, por sinal muito interessante, cantando: “Oh, Champs Elysées! On va danser, on va chanter, on va....Oh! Champs Elysées ! ». E eles vieram se aproximando nesse ritmo compassado pela cantoria, os meninos na frente e as meninas atrás, no coro, como um rolo compressor ironizando os turistas. Genial! Embora isso tenha feito eu me flagrar ali, fez também distinguir em quais condições.

A Champs elysées é o endereço da mais alta burguesia de Paris. Você precisava ver os tipos. Tudo bem que tem ali o Grand Palais, onde está tendo a exposição Brésil Indien, tem lá prédios lindos, mas é assim por todos os lados, então não faz diferença. Foi preciso ver o grande bunner da exposição encimando o suntuoso Grand Palais pra ter idéia do meu estrangeirismo. Era eu, o azul imenso anunciando os índios da Amazônia, e a França. Ali eu era nada. Me senti pequena, ainda não sei bem te dizer por que, mas um pouco diminuída, vendo um símbolo que me faz sentir brasileira (um cocar!!) exposto ali explorado pelo seu exotismo. Me senti uma índia, dá pra imaginar? Mas uma índia excluída da festa, carente do tal exotismo cultuado e, por que não dizer?, cultivado! Uma “exonêmica”, eu. Pelo menos ali, aos pés do Grand Palais.

Fora dali não. Fora dali me sinto mesmo em casa, dando conta da rotina classe média de qualquer lugar do mundo. O que muda são os produtos e os preços. Tenho me sentido muito bem aqui, menos estrangeira, por incrível que pareça, do que me senti em Portugal. Talvez porque tenha vindo pra morar, ao invés de ir entrando e saindo com uma velocidade alucinante da vida das pessoas e, por sua vez, das cidades também. Nesse início eu vejo que basta o sentimento pra dar o tom do como vamos apreender um novo mundo. Todo o resto se desenrola a partir desse diapasão. E eu joguei a toalha. Deixei os Arcos do Triunfo pros franceses ficarem circundando feito alucinados em suas motonetas, fiats e fords. Me lancei no buraco do metro Franklin Roosevelt, que pelo nome parecia significar algo, mais precisamente um péssimo sinal. Devia voltar correndo para o outro lado da cidade.

No “buraco” parei pra ver o mapa e descobrir a conexão que era preciso fazer: Strasbourg-St. Denis, depois Chatelêt (um dos grandes entroncamentos de trem e metrô) e de lá pegar o RER B (RER é o trem, B é a direção da minha casa) para a Porte de Gentilly, que passa pela Cité. Parece difícil, não sei que imagem fica na cabeça de vocês, mas não é não. Nem demorado. É um pulo. Eu agora estou me entendendo melhor com a estação de Chatelêt. Ela é cheia de corredores, entradas, escadas de alvenaria e rolantes, esteiras rolantes, gente surgindo por todos os lados. Mas não existem grandes espaços nela. São corredores e subidas e descidas, pois dali saem comboios pra tudo que é canto. E é um calor infernal. Eu acho que essa fama do francês fedorento vem daí: do lado de fora é frio, e dentro de qualquer lugar existe chauffage, o aquecimento, que nos obriga a um breve strip-tease. E é esse tira e põe o tempo todo, um suadouro louco, e depois um frio de avermelhar nariz.

Já no RER, um sujeito batia no vidro da janela e cantava alto, excitado. Atrás dele, uma mulher que o olhava de maneira fulminante. Mezmerizei-me por aquele olhar, você compreende? Senti que dali sairia algo. Não demorou e ela soltou um gutural “S’il vous plaît”! E depois outro: “S’il vous plaît, monsieur!”. O cara afundou o pescoço no ombro. Ou, pra dizer em francês: “il a plongé son cou dans ses époules ». Gostei dessa atitude, dessa inquietude, dessa impaciência, dessa demonstração pública de irritação. Ça me fait plaisir. Porque sou meio assim, mas até então exercitei demasiadamente a contenção desse tipo de sentimento que trago em mim. Quase chegando aqui, já na estação Cite, vi um casal se amassando no canto da roleta, rostos quase inexpressivos, como nos dramas franceses – ou com a densidade muda do Último Poema do Bandeira. Dois segundos depois eles estavam atrás de mim, porque deixei cair no chão, ao sacar a carte orange, o cartão que me serve de chave de casa. C’est tout.