vendredi, juin 10, 2005

Le Brésil à la une

A cada dia que passa está sendo mais fácil perceber os grandiosos presentes que a vida reservou pra mim. Ainda agora, à uma de la mañana aqui, meu coração bate com força. Ele já havia sido amaciado ontem no concerto do l'Itineraire, grupo fundado por Michael Levinas, composto por verdadeiros virtuoses - esses sim - da música contemporânea. Pude ver ao vivo e à cores o Pierrot Lunaire, do Schoenberg! É verdade!! E ainda outras peças de Webern, Oliver Messiaen e Pierre Boulez. Se houver um bruto na audiência, nele será feito o parto de sua sensibilidade. Depois de ontem eu não acredito mais que possa existir algum ser humano que não tenha jeito, qualquer jeito. Jamais havia visto tamanha entrega à música, tamanha concentração, tamanha presença no ato. Piano, flauta e voz naquela loucura sofisticada concebida pelos espíritos da fantástica Escola de Viena (o céu acima do mármore que recobre o "mundo jaburu" onde vivem as almas aprisionadas) e continuada pelo Pierre Boulez. Me sinto privilegiada pela vida, e não estou brincando.

Como se não bastasse hoje tive o indescritível prazer de dar um forte abraço no grande Custódio e na formidável Cristina, na vernissage do Le Brésil à la Une, na galeria du Monde des Ameriques. A Cristina estava um pouco ansiosa no início, mas só um pouquinho, nada demais, pois até eu estava um pouco. Afinal pertence ao mundo acima da camada de mármore um encontro como esse, pleno de boas vibrações, de sucessos na vida. Gosto demais dessa super dupla de semblante firme. Mais uma dessas dobradinhas de arte que a vida é capaz de compor.

E como se ainda não bastasse, eis que Custódio me vem dizer que ali no salão havia uma Thiago de Mello. Saio à sua procura e ele, do outro lado, me aponta para a mulher. Pelo braço sou levada até a dona e a Cristina introduz as apresentaçòes. Tratava-se da Marilza, prima do Gaudêncio Thiago de Mello, pai do meu eterno Pedro Paulo Thiago (PPT's). Quase uma hora se passou numa conversa de puxar fios de meadas. Tantos foram estes que o grande e saudoso Manduka mais uma vez iluminou-se com todas as loas que lhe são de direito. Seus quadros, sua música, sua poesia, suas idéias, seu exílio intermitente dos vários mundos onde certamente dançou tango e se viu na mira de espíritos menos iluminados, digamos. Talvez também pelo grande apreço que o Paulo Thiago cultivava e ainda cultiva pelo primo, eu incorporei Manduka.

Sem querer parecer repetitiva, mas é preciso dizer ainda mais uma vez que...como se realmente nada nunca fosse bastar, a Marilza me informa que havia sido conselheira do Centre Lebret, simplesmente uma das fundações mais representativas e emblemáticas de toda uma história do desenvolvimento social que se inicia aqui na França, com o P.Lebret, e se desdobra para o Brasil e para os países do chamado "tier monde" de maneira geral - "tier monde" c'est le cacete! Padre Lebret foi quem concebeu a encíclica Populorum Progressio, a partir da qual Dom Hélder, amigo pessoal de Lebret, passou a realizar no Brasil a famosa série de articulações políticas em prol de uma "vida digna" aos destituídos, ganhando de Nelson Rodrigues, por isso, a alcunha de "padre de passeata". Vi que no Instituto Católico de Paris existem vários documentos sobre os embriões dessas idéias que culminaram em políticas de habitação no Brasil e, especificamente, na própria Cruzada São Sebastião, onde ainda hoje habita a minha saudosa e formidável Dona Maria.

Chaqu'un à son tour, tous arrivent au moment qui leur sont de droit. Il ne faut pas des efforts au-delà de ceux qui nous attachent à la spontanéité. Chere Lina: me cutuque!

Pour finir, c'est suffi de como se não bastasse...le grand finale: encontrei um e-mail da Lena, uma prima que me escreveu do Líbano para dizer que Mona, tia distante que até então só me existe em pensamento, está em Paris visitando o filho. Estou emocionada. Aqui na França o Líbano me chegou com toda a força, e por todos os lados. Tenho vizinhos libaneses e já duas vezes me disseram, na rua, que tenho les yeux et du visage du Liban. Pai, tenho andado constantemente feliz, e, conforme for (e quando for) o nosso encontro, formalizemos um dia uma ida às nossas origens? Mãe, sem ciúmes: você também vem.