samedi, juin 04, 2005

O bairro da luz vermelha

Olha só que bijou pude ler hoje num livro que comprei - indicação, claro, de M. Merlot - chamado Poétique de la Ville (Pierre Sansot, Petite Bibliothèque Payot, 1996). Desculpe, mas vou tentar traduzir: "Aquele que fala do homem das cidades se condena à sublinhar o que não falta à verdade, mas isso é demasiadamente generalizante. Nós descrevemos a loucura solitária, o homem apressado que perdeu o senso e a possibilidade dos contatos pessoais e do qual a personalidade se dissolveu pouco a pouco na Metrópole. Sem no entanto recusar esse valor (o da psicosociologia), prefiro inverter a direção do trajeto: ir dos lugares ao homem. Assim, a dificuldade pode ser viver num quarto, numa prisão, num hospital, mas não se trata de uma mesma dificuldade."

Marquei isso porque estava sentada num café "branché", numa mesa sobre o trottoir, depois de voltar de uma lojinha de chineses, onde comprei vermicelli, molho Pad Thai e um incenso que, segundo a dona do mercadinho, não era pra mim pois servia para momentos de oração. O que sabe aquela chinesa a meu respeito? Nada. Par contre, ela deve saber muito bem sobre si mesma. Portanto, deduz-se algo ao meu respeito também. Enchi a dona de pergunta: "como se faz essa massa?", "o que se coloca nessa comida?", "pra que serve essa palha?", "citronela na comida parece com o que?", "isso é doce ou salgado?", "esse incenso que mais parece uma trolha amarela queima durante quantas horas?". Ao final da sabatina, a chinesa estava toda suada e com os olhos arregalados. Só ali foi possível estabelecer um contato mínimo com esse povo hermeticamente fechado. Depois que me sentei no meio da francesada pruma bier blanche, vi como em Belleville existem mundos que não se interpenetram. Por vezes, é preciso encarar como se fossem "corpos sem alma" que se cruzam na calçada, uma indiferença escrupulosamente elaborada e já naturalizada para poder atravessar a rue Faubourg du Temple e a rue de Belleville sem cair pra trás, tamanha a confusão linguística e de perspectivas de vida num mesmo metro quadrado.

Aliás, acho que vale a pena fazer o que eu fiz hoje. Vou deixar aqui uma boa dica (não me levem à mal...): trem Paris (Gare d'Austerlitz)-Pirineus-Barcelona. Doze horas de viagem cruzando as montanhas lá em baixo da França, até a Catalunha. Presente que me dei de aniversário, eu sinto que mereço. Mas queria dizer o segouinte: Gare d'Austerlitz, atravessar o Sena, Gare de Lyon, pegar o 65 ou o 20, passar pela Bastille, entrar na rue des Beaumarchais (éden da fotografia) e saltar na Republique pra ir à pé até Belleville margeando o Canal de Saint Martin. O Canal de Saint Martin é tão marcante quanto o metrô de Paris. Esse povo sabe mesmo a importância dos transportes. Só não sabe ainda a importância que esses transportes todos têm prum estrangeiro que chega aqui, porque parar TUDO antes de uma da manhã parece coisa de....os franceses a-do-ram correr nas escadas "Anne Roulin" e nos corredores do metro. Como correm! Fico vendo isso tudo do trottoir, da beira do canal, detrás de um balcão chinês, respirando o odor dum narguile. E o povo todo correndo, correndo, bufando.

Cosmopolitismo tem limites! Ora, cosmo-polite é a polidez de soi même, um constrangimento das idiossincrasias. Demanda uma certa hipocrisia, um cinismo. Por outro lado, obriga uma contenção que me agrada, uma contenção dessa nossa mania de intimidade à primeira vista. 'Cosmopolite' é um bom nome pra sabonete. O rótulo poderia trazer um buda rindo, ostentando aquela barriga, nem aí, satisfeitíssimo.

Taí: "Cosmopolite: le plaisir de la plaisanterie dans la douche", e tome Buda rindo!

Só posso dizer o seguinte: comemos hoje numa mesa trés interessante num tailandês supimpa. Pedi tudo o que não conhecia, e acabei conhecendo, por isso, "medusa au citronelle" (parecia cutículas com gengibre) e "bu bon" (um prato que no final vira uma sopa, com tudo o que tem direito: amendoim moído, vermiceille, broto de feijão, gengibre, a tal da citronela - boa também para mosquitos - hortelã, coentro, salsinha e carne de boi). Uma partouse gastronomique com vinho rosé. Chose de loc.

Resta lembrar o seguinte: à parte esse ensaio psico-litero-trópico a la Jack, o Estripador, a Gare d'Austerlitz é mais um desses lugares de constantes idas e vindas ("mande notícias do mundo de lá...") mas é também mais um desses lugares que mantêm os judeus pós-guerra conscientes de si mesmos. Dali sairam quase 4000 para Auschwitz em 1941. E em 1996, cerca de 600 prostitutas e meia dúzia de cafetinas saíram da Cidade Nova pro gueto de Varsóvia, quer dizer, pro garimpo da Praça da Bandeira.

Ê ê mundo dá volta, camará. É tudo mais do mesmo. que sono!