lundi, juin 20, 2005

odisséia ali na esquina

Há uma outra coisa no olhar do gringo (além de Pelé, samba e caipirinha) que nos condena, vamos dizer assim, à condição de brasileiros. Eu andei desconfiada de um fato um tanto quanto prosaico, fato que fatalmente me ronda numa primeira especulada sobre a minha nacionalidade. Podemos pensar: é um jeito de se vestir, é a solicitude, o sorriso, o sotaque, um jeito de ver a vida. Há ainda a possibilidade de imaginarmos que, ora, eu estou em Paris, aqui só tem estrangeiro, então espera-se que o assunto "d'oú" teça a prosa como o velho e bom "menina, como esse ano passou rápido!".

Fato é que esse "d'oú" nos deixa ver o mundo pelo buraco da fechadura, ça veut dire, nos mostra um mundo concentrado, focado numa coisa bem marcante, fetichizada, "típica" e, por isso sim, folclórica. O "d'oú" antecede a fantasia do sujeito do outro lado da mesa a nosso respeito. Preciso dizer que me considero também estando do outro lado da mesa em relação à qualquer um que se senta diante de mim na hora do almoço, pois somos todos estrangeiros (e humanos) aqui. Então, quero dizer que tenho muitas fantasias a respeito dos africanos (quase não os distingo pela diversidade dos países), muitas sobre os espanhóis, sobre os árabes (outro conjunto mal definido nas minhas fantasias), sobre os nórdicos e sobre todo e qualquer outro ser classificado no meu compêndio antropo-lógico e -fágico. Tenho aprendido mais na mesa do restaurante do que banco da universidade, podes crer.

Ontem almocei com dois caras do Chade, um país da África central cheio de problemas, pra variar, mas sobretudo problemas religiosos, visto que lá 50% da população é muçulmana, 25% cristã e 25% "animista", quer dizer, toca um tambor e canta pra subir. Fui obrigada a lhes dizer que desde que cheguei aqui me surpreendi com o fato de que ainda não me vi livre, em nenhuma conversa, do tema religião. Isto tem sido algo realmente notável, e concluo que nós, brasileiros, caímos no conto do vigário, literalmente, de que o Brasil é só samba, cachaça e futebol. Falo do vigário porque talvez a igreja católica tenha feito um bom trabalho de lobotomia (salvo nos baianos) nas cabeças da gente que se esquece que somos "exóticos" inclusive pelo nosso sincretismo. Os dois caras do chade perguntaram se eu tinha religião, e eu preferi dizer que acredito em tudo, pois é verdade. Logo fui taxada de "panteísta". Preferi não discordar, até porque eles tinham razão. Mas talvez eu não tenha discordado pois queria continuar entrando no embalo das suas conclusões. Fiz apenas a ressalva de que a minha família era católica, como toda família católica brasileira que "faz a cabeça no candomblé". Eles tentaram entender olhando um tempo pra cima e franzindo as sobrancelhas. Daí, um dos dois me disse que Jesus morreu na cruz para nos salvar dos pecados, e eu disse que também nisso eu era capaz de acreditar. Tinha até tradizo comigo um chapelet para não me esquecer de mais essa crença, eu confessei.

Tudo isso me parecia cada vez mais intrigante. Esquecera-me eu dos mistérios que o meu panteísmo já havia me mostrado até que hoje, finalmente, pude recordá-los através da vivência de um caso clássico de sincronicidade na mesma mesa de restaurante onde eu como quase todos os dia. Dessa vez era mesmo um francês, talvez o mais exótico de todos os casos que acumulo. Depois dos indefectíveis bonjour's e s'il vous plaît's prescritos para a boa comensalidade anônima, nos vimos impelidos a saber um pouco mais sobre o que nos trazia àquela mesma mesa. "Vous êtes d'oú?", antecipou-se o indivíduo. "Brésil", falei eu na mesma língua. "ah!...". A exclamação pareceu indicar que ele já sabia. Tinha amigos brasileiros, e algo em mim o permitia inferir sobre minha condição de muchacha. "Je ne sais pas si sont tes yeux, la mélange du trace", mas algo em mim denunciava. (Nota: há três dias estamos em plena canícula e eu estou vestindo um vestidinho cujo único mérito e mostrar ao mundo que sou moça direita). Ousamos ir adiante na exploração um do outro e descobrimos algo em comum, além do almoço: éramos antropólogos! "Non!", eu exclamei. "Oui!", ele retrucou. Do civilismo para o tricô foi um pulo. Meu companheiro de mesa era da Umbanda parisiense e estudava o xamanismo amazônico! No momento, o meu pulso porta uma fitinha do Senhor do Bonfim presenteada outro dia por uma francesa na entrada de uma sala de exposições do IVéme, e esta fitinha nos conduziu para tricôs ainda mais arrematados. Falamos da Bahia, da Galinha d'Angola do Mello e do Santo Daime. "Je connais le Santo Daime", il m'a dit. Novamente exclamei: "Non!", e ele repetiu o óbvio: "Oui!". Como se não bastasse, o citoyen era xará do Philippe, com quem fiz meus últimos trabalhos no Rio. Já trocamos coordonnées e espero agora poder exercer minha mediunidade além das salas de concerto de Paris - porque a música, sobretudo a de câmara, transporta que não é brincadeira não.

4 Comments:

Blogger ipaco said...

o exótico, o familiar, o ex-familiar, o mamexótico, o pansexualismo, o xamanismo, o islamismo, dadaísmo, comunismo, troposmo... e o mundo, afinal, é nosso. pés sobre os chãos, cabeça nas nuvens... 35 graus em Paris, o silencio sonoro de Manduka, família, les jours de la semaine... e saudade, muita saudade.

5:58 PM  
Blogger ipaco said...

Minha capitã Ulisses, escute, estou enviando hoje o último texto para os argentinos... vejamos de pagamento sai a tempo de financiar uma micro-odisséia em setembro!

6:04 PM  
Blogger ips said...

pt, quel sincronicité, mon ami! fiz uma ressalva depois de clicar no postar, que era exatamente sobre o poder transportador de la musique e recebo, au même temp, la "pequeníssima historicíssima de la musiquíssima brasileiríssima" do silencioso musical Manduka. Que Zeus esteja conosco! Te espero o mais rápido POSSÍVEL! amanhã é Festa da Música, falando nisso, e eu vou pra Place des Voges, Lenine sexta-feira com 1500 coristas no La Villette, Monica Salmaso no Palais Garnier, Tom Zé no LV...falta tu, homi!!!

6:08 PM  
Blogger ipaco said...

pois é, leio suas palavras e me dá aquela sensação tipo "me-segura-que-eu-vou-ter-um-troço", sacume? chutar o balde e pegar o primeiro vôo... mas, muita calma nessa hora, vejamos o que dizem os deuses, os oráculos e os argentinos que estão com o cheque e a caneta nas mãos... beijuuus

9:00 PM  

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