Index I
Outro dia ouvi o Mello ler uma frase de um artigo do Howard Becker que era mais ou menos assim: "se estamos há duzentos anos discutindo a epistemologia da nossa disciplina, então é melhor que esqueçamos essa discussão pois se não foi possível dar conta dela em 200 anos, é sinal de que não daremos também nos próximos 200". eu entendi que talvez a discussão epistemológica da Antropologia seja mesmo um campo da própria disciplina, o seu "campo criativo" onde se bola, recusa, critica, revê e discute os paradigmas mesmo desse modo de fazer ver a vida.
Hoje, no já familiar RU, encontrei um amigo "Jedi", como passamos a nos reconhecer, pois é vero. Tem gente que basta mirar uma só vez no olho do outro que o reconhecimento é imediato, e entender isso demanda muita dedicação para se tomar consciência e confiar incondicionalmente no fato. Pois é. Digo isso pois hoje soube mais um pouco sobre os interesses desse meu amigo: há 20 anos ele estuda ritos de possessão, sobretudo no Gabão, e, entre outras coisas, conseguiu dar conta de processar a chacrona e o cipó na cozinha da sua própria casa, numa jornada de oito horas ininterruptas. Mas porque estou dando essa volta toda para falar do De La Justification? Chega a ser patético esse meu tour, mas escrevendo sei que vou tecendo o fio da meada. Essa pessoa e eu estendemos a conversa para a beira do lago do Montsouris, tempo de uma cigarrilha para voltarmos aos respectivos labores. Sei não...ele me sugeriu ler coisas sobre a Advaita Vedanta, a yoga arcaica, vó de todas, uma proto-ciência, dados os devidos descontos que uma infância cartesiana de nosostros ocidentales tentou romper a todo o custo, e isso só muito recentemente, mas, entretanto, o que é o tempo senão uma ilusão racionalizada para servir à indústria e..... ? Desculpe-me: foda-se Descartes! A não ser para os meus futuros alunos universitários que estarão ávidos por uma erudição sem tempo e com documento.
Foi assim que saí da beira do lago para o FranPrix. É que hoje botei na cabeça que ia começar a ler o Boltanski e o Thevenot, ia mastigar essa maravilha que os dois escreveram mas que demanda uma atenção integral. Já como exercício de concentração me impus a parada, e vi que os caras sofisticaram ao máximo essa refinada tradição francesa de ir espiralando, espiralando uma idéia, tal qual Rita Cadilac no Cassino do Chacrinha. Antes de qualquer crítica, vamos ser agradáveis e constatar que esse livro é um presente bonito para a humanidade das ciências sociais. É um auto-retrato do pensamento francês, um instrumento para se trabalhar material de pesquisa e, porquoi pas penser aussi que esse livro aperta a mão de Howard Becker quando resolve matar uma cobrona e mostrar o pau em todos os ângulos?
Monter en generalité é uma idéia. Ainda bem que eles já pouparam o nosso serviço desenvolvendo uma forma (com brilhos) onde a gente entra em universos, que são situações, a partir dos quais a gente puxa um ou outro fio para legitimar uma coisa que pode ser a mesma num estado puro, mas que muda de acordo com a música do enqueter e da cenografia do drama. Agora é sério: os caras conseguiram cartesianisar e literalizar o que para mim até então era pura poesia do ato contemplativo! Começo a pensar seriamente sobre o jantar de domingo passado, sobre o velho anarquista, o novo sociólogo, a table ronde e o quanto o tamanho do mundo em torno de uma mesa redonda vai depender do tipo de compromisso que se tem com a vida. Pelo o que eu tenho visto os sociólogos estão perdendo feio para os anarquistas. No entanto é preciso relevar, os sociólogos não sabem o que estão fazendo. Perdoai-os, Bakunin.
Hoje, no já familiar RU, encontrei um amigo "Jedi", como passamos a nos reconhecer, pois é vero. Tem gente que basta mirar uma só vez no olho do outro que o reconhecimento é imediato, e entender isso demanda muita dedicação para se tomar consciência e confiar incondicionalmente no fato. Pois é. Digo isso pois hoje soube mais um pouco sobre os interesses desse meu amigo: há 20 anos ele estuda ritos de possessão, sobretudo no Gabão, e, entre outras coisas, conseguiu dar conta de processar a chacrona e o cipó na cozinha da sua própria casa, numa jornada de oito horas ininterruptas. Mas porque estou dando essa volta toda para falar do De La Justification? Chega a ser patético esse meu tour, mas escrevendo sei que vou tecendo o fio da meada. Essa pessoa e eu estendemos a conversa para a beira do lago do Montsouris, tempo de uma cigarrilha para voltarmos aos respectivos labores. Sei não...ele me sugeriu ler coisas sobre a Advaita Vedanta, a yoga arcaica, vó de todas, uma proto-ciência, dados os devidos descontos que uma infância cartesiana de nosostros ocidentales tentou romper a todo o custo, e isso só muito recentemente, mas, entretanto, o que é o tempo senão uma ilusão racionalizada para servir à indústria e..... ? Desculpe-me: foda-se Descartes! A não ser para os meus futuros alunos universitários que estarão ávidos por uma erudição sem tempo e com documento.
Foi assim que saí da beira do lago para o FranPrix. É que hoje botei na cabeça que ia começar a ler o Boltanski e o Thevenot, ia mastigar essa maravilha que os dois escreveram mas que demanda uma atenção integral. Já como exercício de concentração me impus a parada, e vi que os caras sofisticaram ao máximo essa refinada tradição francesa de ir espiralando, espiralando uma idéia, tal qual Rita Cadilac no Cassino do Chacrinha. Antes de qualquer crítica, vamos ser agradáveis e constatar que esse livro é um presente bonito para a humanidade das ciências sociais. É um auto-retrato do pensamento francês, um instrumento para se trabalhar material de pesquisa e, porquoi pas penser aussi que esse livro aperta a mão de Howard Becker quando resolve matar uma cobrona e mostrar o pau em todos os ângulos?
Monter en generalité é uma idéia. Ainda bem que eles já pouparam o nosso serviço desenvolvendo uma forma (com brilhos) onde a gente entra em universos, que são situações, a partir dos quais a gente puxa um ou outro fio para legitimar uma coisa que pode ser a mesma num estado puro, mas que muda de acordo com a música do enqueter e da cenografia do drama. Agora é sério: os caras conseguiram cartesianisar e literalizar o que para mim até então era pura poesia do ato contemplativo! Começo a pensar seriamente sobre o jantar de domingo passado, sobre o velho anarquista, o novo sociólogo, a table ronde e o quanto o tamanho do mundo em torno de uma mesa redonda vai depender do tipo de compromisso que se tem com a vida. Pelo o que eu tenho visto os sociólogos estão perdendo feio para os anarquistas. No entanto é preciso relevar, os sociólogos não sabem o que estão fazendo. Perdoai-os, Bakunin.

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