jeudi, mars 02, 2006

Exótico é a p...!

Meu amigo,

Hoje, lendo os escritos de Michel Leiris sobre a sua primeira viagem à Africa, onde passou pelo Senegal, Sudão e Etiópia ao longo de dois anos, revi a sorte que tive de encontrar Ela ontem. Você já sabe o valor que dou aos encontros. M. Février me diz que sou mystique. Em contrapartida, eu vejo nele um alchimiste. Os franceses também têm o seu charme. Todo povo tem o seu, quando passa ao largo dos estereótipos de "charme" ou de "exotismo". Nesse mundo moderno cada vez mais eu me encontro entre os animistas. Eu vou para a África.

Meu amigo camaronês, da tribo do porco e cultuador do Iboga, aquele homem bem vestido, esportivo e mestre em finanças que almoçou ontem comigo, foi muito generoso. O futebol é um balé. Disse que concordo, e foi por isso que jamais esqueci o nome de Roger Mila, a Isadora Duncan dos campos de Camarões. Ele, meu amigo Ela, ria a cada lembrança do que me falava. Narrando tomava novamente consciência da sua África Central.

"la vie pour nous est simple"; "on danse beaucoup"; "on aime les boissons"; "on a des boisssons pour se devenir invisible, pour chasser"; "ma grand-mère n'a jamais eu de montre, elle connaissait les moments par les chants des oiseaux"; "nous sommes attachés à la nature"; "les pigmeux sont beaux"; "ils aiment la nature"; "nous sommes interdité de nous marrier entre nous"; "entre tout les tribus il n'y a pas de guerre"; "c'est faux ce qu'il disent sur les problèmes entre les tribus"; "c'est pas encore: l'Afrique est tribal".

Michel de Leiris expõe em uma conferência - ele também não era afeito às exposições orais - que o que se chama progresso é a extinção do homem integral. A ayahuasca e igualmente o iboga são professores. Dizemos em bom português que são plantas enteógenas - que em grego quer dizer "deus dentro". O culto aos mortos na África não é o chorar misérias na beira do túmulo de alguém que, partindo, leva do mundo uma parte de nós. Na África os mortos são espíritos e estão presentes. No Santo Daime a bebida sagrada ayahuasca é o vinho dos mortos. Não estamos sós. E vemos. Não cabe aqui fazer uma exegese com os instrumentos do racinalismo que herdamos das ciências do velho mundo. Fato é que o mundo é outro.

Ontem, já no café diante de Ela, olhei a fila formada por uma jovem família francesa. Os meninos lourinhos bem equipados para o frio, casacos de nylon, solados de borracha e couro, cachecóis e bochechas e dentes de uma boa nutrição. Entraram olhando tudo, como que reparando. Não olham olhando. E Ela ria.

Vou anotar aqui um trecho da conferência de Leiris, quando ele cita um ensaista senegalês, Alioune Diop, que diz que há ali "la présence au concret et à la succulence immédiate de la vie" (LEIRIS, em 1948, mas na página 884). Autrement dit, o escritor africano mencionava o contato com as coisas, a fusão com a natureza que nós, civilizados, perdemos, tão preocupados que estamos com uma exploração racional das coisas.

É o que dizia Pierre Fatumbi Verger, respondendo ao Gil lá na Bahia: "eu sou um racionalista francês idiota, não tenho a capacidade de entrega dessa gente. Não participo da possessão", para morrer dois dias depois, feliz da vida, em meio daquela gente do candomblé que ele adorava. Bom, chaqu'un son café.

Só sei que na Bélgica, numa cerimônia do Santo Daime com um padrinho vindo diretamente do Juruá, tombei duas vezes. E no final, a gente acha bom. Deve ter algo aí, não?

Li sobre o Iboga. Seus princípios se assemelham aos do nosso jagube. A substância que nos proporciona o sentimento do nosso corpo é inibida. Assim, deixamos a existência corporal e nos entendemos numa existência completamente outra. Somos o que somos capazes de sentir, sem a experiência do corpo. Eu conheço isso. Sem o conhecimento científico por trás, é o que se chama de xamanismo.

Bom, no Sudão muçulmano eu vou encontrar os problemas de coabitação num campo de refugiados que em muito pode me ajudar existencialmente e, por conseguinte, para o desenvolvimento da minha pesquisa. A gente sempre se ajuda reciprocamente sem querer, sempre sem querer. Eles lá no norte do país estão numa situaçào que se diz provisória há 20 anos. Não são os parques proletários. Têm outro nome, e não são provisórios. Isso é que é eufemismo e ambiguidade à toda prova! E a gente vive.

Olha, obrigada pelo teu carinho. A lembrança da possibilidade de ir pra Angola em novembro, às 3:00 da manhã de ontem, finalizou o dia com um gol de bicicleta, e lá naquele cantinho onde a coruja dorme. Poxa, vida...tenho anotado esses dias especiais em Paris. E eu que pensava que aqui estaria entre parênteses nas minhas incursões etéreas. Eu não poderia sequer imaginar. Olha...e eu pensava que era crente. Mas a natureza tem feito muito por mim, ca-ra-lho .