vendredi, mars 31, 2006

Le mot tabou: "promulgation"!

Jacques Chirac acabou de proferir o seu discurso de nove minutos em rede nacional, a respeito de uma definição sobre o polêmico CPE (contrato de primeiro emprego). Chirac lê como ninguém. Deve ser um avô impar, exprimindo com todas as nuances de espírito os humores dos personagens dos contos de fada. A voz úmida de Chirac deu o recado com todas as letras: "la loi a été promulgué". Et voilà a palavra tabu. Ele promulgou a lei de seu primeiro ministro Dominique de Villepão, porém, com todo o orvalho de sua bela voz, disse, como quem sussura no ouvido de todo e cada francês: "vou pedir ao parlamento para reduzir de dois para um ano o período de experiência e vou pedir ao parlamento para exigir que o empregador DÊ O MOTIVO da demissão". Aahhh booommm....

Nove minutos. Recado dado e, imagino eu, helicóptero levantando poeira. Resta na praça da Bastille milhares de estudantes em fúria. Em fúria, não se trata de outra coisa. Um debate seguiu na rádio entre um líder do Partido Socialista de Seine-Saint-Denis, uma líder dos estudantes de segundo grau, e ainda teve uma nota para a chacrete Sarkozaça. O primeiro disse que Chirac deu uma declaração para manter o seu primeiro ministro no cargo, pois este fez beicinho e ameaçou cair fora caso a lei não fosse promulgada. O PS vai sustentar a greve de terça-feira, 04 de abril 2006, agora de maneira massiva. Mas pede aos líderes estudantis que não façam uso da violência. Há Há Há. Justo em seguida, a líder dos lycées começou a emitir sua opinião em pleno calor emocional da Praça da Bastille dizendo que a declaração de Chirac tinha sido uma "provocação". A França vinha de se transformar, com isto, numa cocotte minute. Ou, em bom português, numa panela de pressão. A moça, esgoelando-se ao microfone, fez uso da palavra que arranha meus ouvidos como chapinha de refrigerante arrastando no cimento: "nous sommes en colère!!!!"
Outro jovem encontrou, rapidamente, um rótulo para a já rotulada Geração CPE: "nous sommes une generation sacrifié".

Pôxa, ainda bem que eu caí do bico da cegonha em agosto de 1974! Eu hein! Um atraso na queda e eu corria o risco de dar pinta de bouc émissaire!

Continuando na fogueira: Sarkozaça, ele também com toda a sensualidade da língua francesa nos ouvidos de uma lusófona, disse que saldava a decisão do presidente. Era mesmo uma declaração de maturidade e de sagesse.

O problema disso tudo é que esperei até agora para apresentar o meu trabalho no curso de antropologia de Paris X-Nanterre, e exatamente no dia 04 de abril! Será que não seria isto um prenúncio enigmático e divino sobre minhas especulações sociológicas? Logo eu, que queria desenvolver a idéia de uma incivilidade forjada no seio da emblemática universidade de Nanterre, aquela do maio 1968. Logo no dia da minha triunfal apresentação sobre o terrain numa cité cariôcá?

Só me resta pedir mais uma bolsa para o ano que vem. E rezar para que o agito seja em outro terreiro.

Só para lembrar: o CPE é apenas um dos ítens de um contrato maior, chamado Contrat d'Égalité de Chances. Imagina só o tamanho desse bode preto, hã...haja feno e queijo pras barricadas!