Miroir de l'Afrique
Querido Monsieur Arlequim,
Finalmente hoje fui tratar do sangramento no meu nariz. Ensaiei o serviço de saúde pública, o Centre Medical Saint-Marcel. Às 8:20 da manhã estava lá eu, uma senhora africana com seu filho ou neto, uma senhora marroquina muçulmana com sua filha e com sua netinha, três romenos de voz grave que falavam sem parar entre eles, uma jovem "issu de l'imigration africaine" e um outro homem noir. Na sale d'attente não havia, de fato, nenhum francês.
A enfermeira me chamou pelo nome, sem pronunciar o nasal de "mões". Aqui, "simões" e "seleção" ganham um tom de canard formidável. Segui a dona, dei minhas coordenadas a ela, e quando ela me perguntou se eu tinha a securité sociale, apresentei o meu papel. Ela riu, disse acreditar em mim: não era preciso comprovar nada. Aquele centro de saúde era gratuito e atendia indiscriminadamente de "sans papier" e "clochards" aos enquadrados nas normas da lei. Entre todos, porém, pelo menos o que me foi dado ver, 100% eram estrangeiros. Logo...
Quando voltei para a sala de espera, observei os africanos que aguardavam comigo. Concentrei a atenção sobretudo àquela senhora de turbante colorido e à duas outras, que chegaram depois, uma delas com traços de cortes no rosto - iniciáticos ou "continuáticos", pouco me importava. Fato era que observava aquela salinha fria, com algumas cadeirinhas, onde sentavam bundas de crenças e trajetórias que, ulaláaaah, só deus sabe como foram parar ali.
As damas africanas sempre me parecem muito presentes. Ao contrário das damas francesas que vemos nos ônibus, ora lendo, ora olhando pela janela com o pensamento longe dali, as damas africanas estão sempre no ato. Elas não chafurdam em páginas de qualquer análise social, de nenhuma literatura, muito menos dos faits-divers de jornais ou dos últimos lançamentos da moda e da cosmetologia das revistas femininas. As damas africanas, pele de rainhas, restam ali, firmes e fortes, olhando o presente, o que se faz no momento exato.
Observava estas senhoras. A que estava acompanhada largou a sobriedade da espera e abriu um sorriso largo com o que seu filho (ou neto) acabava de lhe dizer. Mais ainda: ela levantou e o abraçou. Meu coração batucou e eu sorri também. Acho bonitas as manifestações de carinho, sobretudo quando tenho a sorte de ver o momento da explosão, também chamado de espontaneidade. O gesto que vira me levou à meditar sobre o respeito que as gerações africanas mais jovens parece portar aos mais velhos. E fiquei com a impressão que talvez também viesse disto o semblante de estabilidade, compenetração, sabedoria e, principalmente, de temperança desses pretos velhos d'ailleurs.
A enfermeira entrara novamente na sala, e chamou pelo nome uma mademoiselle Bambalah, um monsieur Kyostovski. O "meu" doutor, otorrino-laringologista, chegou em seguida e a mademoiselle "simôes" foi convocada. Abri as narinas, a boca, mostrei os ouvidos, peguei a receita e fiquei de voltar semana que vem.
Aproveitei o sol lindo das 9:20 da manhã, a neve ainda sobre a cidade, e fui à Gibert dar uma olhada na sessão de etnologia. Fiz uma foto da entrada da loja: uma fila de senhores e senhoras envolvidos por manteaus, escondidos por luvas e protegidos por boinas aguardava em frente à porta. Novamente me integrei à um grupo que aguardava. Desta vez um pouco diferente: sobre a calçada, sob o sol, e monocultural - não fosse minha presença entre "eles".
A porta se abriu. Entramos como em procissão. Escada rolante, primeiro andar ficando pra trás, vi a estante da Pleiade d'occasion ficando pra trás, mais tant pis: par contre eu me aproximava da estante de etnologia. Àquela hora, certamente, era estaria todinha pra mim. Pensava em Griaule. Me coloquei diante da estante, olhei as etnologias do mundo separado em continentes: Asie, Amerique, Europe, Oceanie, Afrique. Olhei o que se tinha sobre "nós", mas não quis saber mais do que isso. Dei um passo à esquerda e me abaixei diante de l'Afrique. Griaule estava ao lado de Michel Leiris. Peguei o Les Flambeurs d'Homme, de Griaule, e vi que ele citava Salassié em seus agradecimentos. Juntei algum léu-com-créu. Neste livro Griaule envereda pela Etiópia em pleno período facista italiano. Juntei algo mais para futuras costuras.
Peguei Leiris na estante. Um livro imenso, papel de bíblia, Miroir de l'Afrique. Na contracapa li que "nós pilhamos os negros para ensinar etnografia aos nossos alunos que futuramente vão aprender também à 'amá-los' e a pilhá-los". O livro concentrava, além deste pequeno trecho de um texto ali contido, o l'Afrique Fantôme, La Possession et ses Aspects Thêatraux chez les Éthiopiens de Gondar, Afrique Noir: la Création Plastique, entre outros textos, correspondências e documentos. Vi que o ivro estava um pouco blessé na lombada. A vendedora me fez um desconto de 20%. Ela sim, se preocupa com o futuro da antropologia francesa!
Deixei momentaneamente de lado o Griaule e empacotei Leiris. Abaixei novamente para ver o que me espreitava: uma estante com uma coleção de livros inéditos. Meus olhos bateram no nome de Emile Zola, título: Carnets d'enquêtes - Une ethnographie inédite de la France. Nem olhei preço: pra dentro! Sobre o livro, te escreverei em breve um novo e-mail, mas já posso te adiantar, meu amigo, que se trata de uma pérola rara. Cadernos de campo de Zola em suas deambulações por Paris, pelos mesmos 'coins' que me foi dado visitar pelas mãos e pelos passos de M. Février. Que luxo. Começo a achar que eu mereço.
A coisa ia indo de vento em popa. Vi a tradução francesa de Hans Staden, que contava para Augustin há algumas três semanas, e me decidi por fazêr-lhe um cadeau. Em francês ficou assim: Nus, Feroces et Anthropofages. Para Ketia, que faz anos dia 03, ensaquei um Capitães de Areia, do AMADO, Jorge. Salve Jorge! Por ser data especial, ela acabou levando - ainda não sabe - um disco do Gil. Sábado rolarão carinhos.
Continuei minha marcha matinal chez Gibert e um chamado me conduziu à parte dos livros esotéricos. Teve jeito não: entre Martine Segalen e Pierre Riffard, fiquei com o segundo. Trabalho muito concentrada nos problemas urbanos e tenho vontade de saber como esses homens que estão aqui e acolá se diferenciam no que não manifestam nas palavras dadas ao vento. Era a hora de presentear o meu espírito.
Estava de bom tamanho. Caixa, euros torrados e um sentimento de pairar acima da vida ordinária. Afinal, eu podia passar a carte bleu e pagar uma pequena fortuna em livros que jamais estarão em listas de revistas semanais. No saco ia o passaporte com visa universal e um bilhete para Hes. A mão que segurava o saco portava um corpo cujos pés pisavam em estrelas no trottoir das vitrines de 'fring' de um boulevard Saint-Michel evacuado das livrarias de renome de antanho.
Fontaine de Médicis. É lá o meu coin secreto. Sentei ao lado da neve, os passarinhos vieram cantar nos meus pés. Os passarinhos são franceses: destemidos, dão pitaco em tudo, falam sem parar. Mas são passarinhos, é gostoso ouvi-los, ainda mais assim tão de pertinho. Abri um dos meus presentes, li. Encontrei algumas de suas palavras sobre a palavra no L'Ésoterisme. Mestre, o mundo muçulmano, hindu, mesopotâmico, soufi, gnostico, cristão, xamânico japonês, taoista, confuciano, tântrico, branco
ou iboga (ou IBOGA) estão todos na tua sabedoria universal, meu querido professor de antropologia. Amém!
20 pra uma, 21 vers restaurante de la cité. Fome negra. Entro no RU e me sento com dois jovencitos chineses, que me desejam bonne apetite e partem com um au revoir. Fico só na table ronde, até que chega um sujeito. Era um negão. Senti que algo estava en train de se manifestar. Ele ajeita seu manteau, coloca a pasta na cadeira ao lado, perfila a bandeja. Uma preparação banal para o repas. Noto que antes de pegar nos talheres ele faz um sinal da cruz e numa passada rápida de olhos ele vê que eu o vejo. Ofereço-lhe água, lhe sirvo, e a pergunta vem imediatamente em seguida: "vous êtes...." - "bresilienne", respondo. Claro, porém pas evident,
retruco: "et vous?". - "Cameroon".
Dali la poooorte s'ooouuuvre...
- Brésil? J'envie d'aller là bas. Il y a beaucoup d'africaines au Brésil, non?
Como eu, há pessoas por aí também orgulhosas de suas racines. A associação Brasil-África parecia ali inevitável. Talvez fosse já a manifestação que comecei a gerar e gerir desde a manhã do dia de hoje.
Disse eu que conheci o Camarões através Roger Mila. Eu adorava Roger Mila, e torci pela equipe camaronesa naquela Copa de não sei quando. Ele tira uma revista de futebol da bolsa e me mostra uma fotografia de Roger Mila jantando com uma equipe chinesa em 1973. Equipe chinesa?
O comensal en face se engajou inteiramente e rapidamente na conversa. Perguntou de qual cidade eu era: Rio de Janeiro. "Ça veut dire rivière de janvier?". Eu disse oui. Ele me disse que em Camaròes também foram os portugueses que deram o nome, no século XVI: Rio de Camarões. No caso deles, tratava-se de um rio de fato, e cheio de crevettes, como ainda hoje. Ele estabeleceu inumeras correspondências entre os frutos e a gastronomia do Camarões e a brasileira. Me falou das bebidas (vinhos e licores) produzidas com a polpa da palmeira de açaí. Me contou dos pratos feitos à base de mandioca, banana, peixe. Disse que ele tinha um cacaueiro desde pequeno,
presente do seu pai. E me contou sobre o cacau, sobre o cultivo, sobre o gosto, sobre os procedimentos de colheita, secagem e uso. Sem piscar, ele passou a descrever que na sua tribu, e nas tribos africanas de maneira geral, os mais velhos são absolutamente venerados pelos mais novos. Não era possível. Apresentei a ele o que havia pensado hoje cedo na sala de espera do Centre Medical Saint-Marcel. Ele me corrigiu: "il ne s'agit pas de respect à des regles. Pour nous, c'est naturel considerer les gens agées. Ils ont déjà vecú, ils ont déjà vu". Et voilà: eles VIRAM.
ELA, seu nome. Ela me disse que as tribos são muito próximas da natureza. Então, eles não precisavam de muito. Para ele, a vida é simples - frase esta que repetiu diversas vezes para me introduzir em cada aspecto do que queria me contar sobre sua vida em Camarões. "La vie est simple, on l'observe beaucoup". Sua vó, por exemplo, nunca precisou de relógio: ela ouvia os passarinhos e sabia, por cada canto, qual era o momento do dia. "c'est simple, mais demande l'observation, quand même". Ele versava sobre o que senti vendo as damas africanas na sala de espera! Sem querer, ele falava também de Ogotemêli ! Ele falava era da África !
Ela tentou outro modo de me dizer as coisas simples. "Les français, par exemple". Com esse sujeito de comparação, ele começou a me apresentar suas impressões sobre essa estranha sociedade no seio da qual me encontro. Para ele os franceses não valorizavam os mais velhos de suas famílias. Um menino ou uma menina não precisavam saber a história de seus antepassados. Isso não é o mais importante para um casal de pais franceses. São outros os valores transmitidos para que essa criança siga seu caminho no mundo, segundo Ela. "Vous m'avez expliqué que votre prenom est à cose de vos ancêtres, votre grand-mère paternal et les parents de votre grand-père paternal aussi étaient libanaises. Vous connaissez vos racines". Eu sorri. Eu sorri, ora! Ele, ou melhor, Ela reconhecia na transmissão de um valor de minha família um valor fundamental em sua tribo, naquele continente onde passei a manhã. E continuou: os franceses não se importam com seus velhos. Em Nice, onde ele estava fazendo seu DEA em Finanças, em Nice faz calor, e os velhos ficam esquecidos nas casas de repouso, expostos nus nas varandas, aos cuidados das enfermeiras com as quais não têm qualquer vínculo histórico. Os franceses são tristes, para Ela. E racistas. A colonização se resume em: em te dou, se você me der. Mas se você não me der, eu pego.
A colonização colocou fronteiras onde não existiam, e ignorou as existentes. A África é tribal. "Encore aujourd'hui", eu disse. E ele me respondeu: "pas encore aujourd'hui. C'est comme ça". Minha cabeça evolucionista caiu definitivamente ali. A burocracia afastou tentou afastar o homem tribal da natureza, mas isso não acontece totalmente em toda a África.
A burocracia não reconhece os "guerriseurs". O homem fica doente e vai ao hospital. Mas se ele tem uma família, ele pode ser indicado à um curandeiro, a um feiticeiro que vai dizer seu nome sem o conhecer. Aí ele me falou do IBOGA. Sua tribo faz o Iboga. Sua tribo é a dos "cochons", é a tribo do porco. Mas eles comem o porco, e toda carne de caça. Sua tribo existe também entre os pigmeus. Os pigmeus são maravilhosos, ele me disse. E eu ri e contei pra ele que existe no Brasil um programa de entrevistas (O Jo Soares) onde uma vez foi lá a organizadora de um grande festival de "música do mundo", que levou com ela um grupo de 15 músicos pigmeus. "Todos se sentaram no chão, com as pernas esticadas. Eu vi aquela gente ali, num studio cheio de luz artificial e pensei - mas o que é que eles estão fazendo ali!". Ele riu muito e reforçou que eles realmente são muito ligados à natureza. Sua tribo, então, é a do porco. Mas havia entre eles pessoas da tribo do "foie d'elephante", a tribo do "fígado de elefante", e que todas essas tribos
coabitam tranquilamente, pois uma das regras é se casar com pessoas que não sejam da mesma tribo. "Ça que tu me raconte me semble trés beau, Ela. C'est une ouverture!". Ele disse, "voilà, c'est une ouverture".
Ela lembrou-se de me dizer que eles produzem muitas bebidas alcóolicas. E aí ele riu, e começou a enumerá-las. E explicou porque ria: era porque conversando comigo ele se dava conta de como eles gostam de beber e de dançar. "Par exemple, pendant le jour, tu peux voir les gens dans les bars des villages en dansant". E versou algo sobre o barulho, dizendo que para eles não importa o barulho que você faça. Se voce quer ficar quieto no seu canto ninguém vai te perturbar, mas o "normal" é a reunião, a festa, são as coisas simples da vida, como o nosso encontro ali na mesa do restaurante universitário, por exemplo. Me lembrei da Cruzada. Mais precisamente da
"cruzada contra as manifestações festivas" naquele conjunto habitacional do Leblon, no Rio de Janeiro, onde a festa, a bebida e o barulho ganharam conotações de imoralidade.
Ela me disse que eu serei uma benvinda em sua casa no Camarões. Ele, Ela, continuou dizendo que gostaria de me rever. Mostrei para ele o livro do Michel Leiris que acabara de comprar. E ressaltei que para mim também a vida era feita desses encontros formidáveis, e que hoje, especialmente, estava me sentindo muito feliz desde cedo com as observaçoes que estava fazendo ao longo de minha journée.
Ela me contou um pouco mais sobre o Iboga. Eles pegavam uma colher de café e colocavam nela uma dose de uma mistura feita com a raíz do 'ngosso', chamada 'ha-a'. Pela sua descrição, me lembrei da ayhuasca, e contei pra ele que no Brasil eu participava de cerimônias que eram assim: e descrevi a mistura indígena, kardecista e católica que foi feita nos confins da Amazônia por um velho seringueiro do Maranhão, filho de escravos libertos. Ele me disse que se assemelhava bastante ao iboga, e me contou mais sobre os feitiços e curas. Há poções que nos tornam invisíveis, poções sobretudo utilizadas para a caça, para que um elefante, por exemplo, não perceba a presença do caçador. E que nos cultos há um momento onde "a porta se abre". Péra aí: a imagem da porta está também no esoterismo que frequento, e está também em todos os lugares onde existe este elemento - a porta - utilizado para separar ambientes. E Ela complementou: em Camarões há muitos ambientes, "il
y en a plusieurs, plusieurs!".
Neste momento Philippe, meu amigo francês com quem um dia de maio do ano passado almocei no mesmo restaurante e que, depois dos "d'où est-ce que tu vient" e que tais, descobrimos que ambos conhecíamos o Santo Daime e éramos antropólogos, Philippe chega para me dizer que estava ali com Kaivan, nosso yogui iraniano. Ela me disse que vai me dar de presente um livro de um escritor do Camarões que narra as mudanças cotidianas que a colonização fez trucidar naquele universo simbólico.
Ela me convidou para um café. Disse que ia dar um "coucou" aos meus amigos e que nos encontraríamos no café. Falei com Philippe e Kaivan da maravilha que vinha de acontecer, e eles também foram nos encontrar no café, pois Philippe estuda os ritos de possessão, esteve no Gabão e conhece o Iboga. Tanto ele quanto Kaivan tomaram outra vez a raíz do 'ha-a' com um feiticeiro que veio do Gabão à Paris. Nos encontramos todos, então, no café e Philippe, etnólogo bem francês, começou a interrogar Ela como se fosse um agente da Gestapo. Ela ria com o seu interrogatório e tentava dizer que as coisas não se passavam nessa ordem que ele tentava explorar. Eu e Kaivan aproveitamos para "faire foutre", doucement, Philippe. Posso te dizer que Ela vai telefonar amanhã para o seu irmão no Camarões e pedir para ele comprar 300 gramas da raíz para que façamos juntos um rito aqui em Paris. Mas não se preocupe, mestre, pois o 'ngosso' é permitido na França, e a exportação do Camarões é igualmente permitida. A exportação é interditada apenas do Gabão, por ordem das leis locais.
No café, Ela ainda falou que a poligamia é legítima entre eles, desde que seja com o acordo da primeira mulher. "Mais elles n'acceptent jamais". E eu quis saber um pouco mais como isso se passava, pois sempre tive curiosidade de saber como se geria o ciúme. Ou se o ciúme era um sentimento dos ocidentais, surgido da um sentimento de posse associado às sociedades onde a propriedade era regida segundo certos princípios. Felizmente Ela me indulgiu: "pas de tout!". Os homens forçam a primeira mulher a aceitar as outras que chegam, e entre elas há uma constante tensão. Este ideal da família poligâmica onde a paz reina entre todas é apenas um ideal. Ufa!
Posso continuar a mostrar as minhas garras sem medo nem culpa. Agora fodeu!
Bom, maître, estou querendo escrever a minha tese. Cada vez mais eu vejo que fiz a escolha certa, pois não poderia trilhar um caminho melhor que me pudesse franquear, ou melhor, 'casar' uma busca espiritual com uma busca científica de compreensão dessa espécie à qual pertenço.
Vou deixar os celenterados e as gramíneas para a próxima encarnação!
sòi Dá g'òi vê hoa Lan,
Soraya
Miroir de l'Afrique - Epílogo
Querido,
Imediatamente após clicar 'enviar', parti para pegar o RER C na estação Saint-Michel em direção à banlieu de Savigny sur Orge. Chego ao cais da linha em questão e no auto-falante dá-se um recado de interdição entre Choisy le Roi et Juvisy. Minha estação era a seguinte, e portanto perguntei à menina (adivinha a cor?) ao meu lado se a mensagem era a que eu havia compreendido. Ao lado dela havia um rapaz (adivinha a cor?) que ouviu o que eu perguntava e tomou a iniciativa de complementar a informação, dizendo que o meu trem se aproximava, era o mesmo que ele pegaria. Agradeci - nossa, como eu agradeci o dia de hoje - agradeci imensamente a imigração africana na França e, andando, peguei o trem.
Nota importante: toda quarta à noite eu parto para Savigny. É sagrado. É uma ordem. Cheguei cedo na casa do Jacques, esse amigo na casa de quem eu faço minhas meditações conjuntas, e fiquei na sala observando os quadros do Julien, um outro amigo e um artista extraordinário que veio do Benin e mora no seu grande studio squatteur ao lado da casa de Jacques, com seus dois filhos. Pois fiquei ali em frente a um de seus quadros, apreciando todos aqueles traços e o uso dos diferentes materiais e texturas. A temática do seu trabalho é sempre uma: o vodu, a escravidão, o deracinement vers l'Amerique. Me detive diante de um quadro que realmente me impressiona pela quantidade de detalhes, um épico, um Mahabarata, um Balzac negro: um navio onde se carrega, à cores, seus ancestrais do Benin para o novo mundo. Em
volta, em marrom e branco, estão os espíritos vestidos com as roupas do culto. E nos mastros, nus e acorrentados, os negros já escravizados. Tudo isto é para ser descoberto, pois a pintura é feita de milhares e milhares de traços finos e muitas dimensões. A gente vê o vento nas velas, as pirâmides de água das ondas amolestadas pelo singrar do negreiro, a conferência dos homens e dos espíritos, o destino presente na dor e a presença das forças da natureza.
É...eu me afasto, páro e penso, olhando o chão: "quanto trabalho. que presente para o Jacques. A amizade só pode ser verdadeira". Jacques então chega, e traz consigo uma mulher, Marie Anie, que chegara havia duas semanas do...Sudão ! Rapidamente travamos uma conversa que parecia ter começado a partir de uma vírgula, como se recuperássemos um diálogo rompido por alguma circunstância sem importância.
Então a África estava realmente decidida a seguir meus passos hoje. Ah! E sem contar o gato preto que desde antes de ontem me espera na entrada da Maison du Brésil. Ele me descobriu há dois dias, e miando me segue até o momento em que eu faço o último carinho e fecho a porta.
Voltei com Marie Anie para Paris no trem das 22:00. "Et alors, vous etiez au Sudan, dans un champ de refugiés?". Ela começou a me contar. Trabalha para a Cruz Vermelha e passou dois anos no norte do Sudão. No inverno faz frio, no verão não tem sombra. São 60 mil habitantes nesse campo, nesse espaço que sobra num território destruido pela guerra. Os sudaneses do norte são majoritariamente muçulmanos, mas de um islamismo pouco ortodoxo. Eles não consomem álcool, evidentemente, mas as mulheres usam véus coloridos e se maquiam bastante. Mesmo lá, no campo de refugiados, pois de provisória a vida deles só é no nome. Eles estão em situação provisória há vinte anos e só Alah sabe, se é que sabe, quando - e se é que - isso mudará. Antes disso
eu respondi o que ela queria saber: sobre a minha tese. Expliquei como nunca conseguira explicar. Acho que hoje foi um dia importante realmente para precisar muitos pontos. Pontos que não vieram do nada, mas hoje, com a atenção que os eventos do dia me demandaram, acabei precisando no embalo de toda essa concentração que, graças ao meu bom Alah, não era a de uma escola de samba!
Bom, meu amigo, esse e-mail não poderia deixar de seguir. Agora posso dormir em paz pois está tudo registrado em duas cartas para você.
Ontem estive com Anne Raulin. cheguei atrasada à Nanterre, e quando entro na sala vi que ela falava da antropologia brasileira, dizendo que a idéia de antropofagia no nosso égard anthropologique estava mesmo na de uma antropofagia cultural. Na hora o meu assanhamento crítico do lado infantil aflorou e no silêncio detonei diversas apreciações ao que acabara de ouvir. Vendo que meu coração batia acelerado tratei de me aquietar e disse a mim mesma: "Soraya, aprume-se! Essa atitude de estudante contestadora implacávelmente aveugle é já obsoleta!", e assim entendi que Anne é
francesa, e acessa o Brasil através da leitura. A recíproca era verdadeira. No meio de tudo ela me convocou à roda, e citou o que eu escrevi para ela no e-mail da semana passada, sobre o olhar militante na pesquisa. Em seguida, o que me deixou muito animada, pois se tratou de um estímulo, ela falou pra turma que já tinha um trabalho a ser apresentado, e seria um esforço comparativo entre dois casos de campo na América Latina: o meu, e o de Dorothée, esta moça que me procurou e que trabalhou numa favela na Guiana Francesa. Anne Raulin reforçou que tinha especial interesse nessa idéia nossa, pois concernia às suas pesquisas e era, de fato, um trabalho de
antropologia urbana. Donc, ficou combinado: vou falar do terrain. E sei que vou partir para uma longa dissertação sobre a cohabitação, e vou falar de Belleville e também da Vila Mimosa. Vai ser um bate-papo, vou separar as fotografias.
Saí com Dorothée, que me acompanhou até o trem. Essa moça faz o DEA em Paris X e eu perguntei se ela não queria tentar a bolsa via o nosso acordo para ir ao Brasil, trabalhar com a gente. Ela arregalou um olho, como se eu estivesse lhe dando um presente. É uma possibilidade, cabe a ela correr atrás. Falei de você. Sugeri a leitura do seu artigo publicado no livro do colóquio de Cerisy, escrevi teu nome pois ela queria procurar na internet também. Enfim, fiz o comercial. Ando cooptando. Parabolicamará.
Agora, enfim, estou quebrada.
Um beijo e bons sonhos !
Soraya
Finalmente hoje fui tratar do sangramento no meu nariz. Ensaiei o serviço de saúde pública, o Centre Medical Saint-Marcel. Às 8:20 da manhã estava lá eu, uma senhora africana com seu filho ou neto, uma senhora marroquina muçulmana com sua filha e com sua netinha, três romenos de voz grave que falavam sem parar entre eles, uma jovem "issu de l'imigration africaine" e um outro homem noir. Na sale d'attente não havia, de fato, nenhum francês.
A enfermeira me chamou pelo nome, sem pronunciar o nasal de "mões". Aqui, "simões" e "seleção" ganham um tom de canard formidável. Segui a dona, dei minhas coordenadas a ela, e quando ela me perguntou se eu tinha a securité sociale, apresentei o meu papel. Ela riu, disse acreditar em mim: não era preciso comprovar nada. Aquele centro de saúde era gratuito e atendia indiscriminadamente de "sans papier" e "clochards" aos enquadrados nas normas da lei. Entre todos, porém, pelo menos o que me foi dado ver, 100% eram estrangeiros. Logo...
Quando voltei para a sala de espera, observei os africanos que aguardavam comigo. Concentrei a atenção sobretudo àquela senhora de turbante colorido e à duas outras, que chegaram depois, uma delas com traços de cortes no rosto - iniciáticos ou "continuáticos", pouco me importava. Fato era que observava aquela salinha fria, com algumas cadeirinhas, onde sentavam bundas de crenças e trajetórias que, ulaláaaah, só deus sabe como foram parar ali.
As damas africanas sempre me parecem muito presentes. Ao contrário das damas francesas que vemos nos ônibus, ora lendo, ora olhando pela janela com o pensamento longe dali, as damas africanas estão sempre no ato. Elas não chafurdam em páginas de qualquer análise social, de nenhuma literatura, muito menos dos faits-divers de jornais ou dos últimos lançamentos da moda e da cosmetologia das revistas femininas. As damas africanas, pele de rainhas, restam ali, firmes e fortes, olhando o presente, o que se faz no momento exato.
Observava estas senhoras. A que estava acompanhada largou a sobriedade da espera e abriu um sorriso largo com o que seu filho (ou neto) acabava de lhe dizer. Mais ainda: ela levantou e o abraçou. Meu coração batucou e eu sorri também. Acho bonitas as manifestações de carinho, sobretudo quando tenho a sorte de ver o momento da explosão, também chamado de espontaneidade. O gesto que vira me levou à meditar sobre o respeito que as gerações africanas mais jovens parece portar aos mais velhos. E fiquei com a impressão que talvez também viesse disto o semblante de estabilidade, compenetração, sabedoria e, principalmente, de temperança desses pretos velhos d'ailleurs.
A enfermeira entrara novamente na sala, e chamou pelo nome uma mademoiselle Bambalah, um monsieur Kyostovski. O "meu" doutor, otorrino-laringologista, chegou em seguida e a mademoiselle "simôes" foi convocada. Abri as narinas, a boca, mostrei os ouvidos, peguei a receita e fiquei de voltar semana que vem.
Aproveitei o sol lindo das 9:20 da manhã, a neve ainda sobre a cidade, e fui à Gibert dar uma olhada na sessão de etnologia. Fiz uma foto da entrada da loja: uma fila de senhores e senhoras envolvidos por manteaus, escondidos por luvas e protegidos por boinas aguardava em frente à porta. Novamente me integrei à um grupo que aguardava. Desta vez um pouco diferente: sobre a calçada, sob o sol, e monocultural - não fosse minha presença entre "eles".
A porta se abriu. Entramos como em procissão. Escada rolante, primeiro andar ficando pra trás, vi a estante da Pleiade d'occasion ficando pra trás, mais tant pis: par contre eu me aproximava da estante de etnologia. Àquela hora, certamente, era estaria todinha pra mim. Pensava em Griaule. Me coloquei diante da estante, olhei as etnologias do mundo separado em continentes: Asie, Amerique, Europe, Oceanie, Afrique. Olhei o que se tinha sobre "nós", mas não quis saber mais do que isso. Dei um passo à esquerda e me abaixei diante de l'Afrique. Griaule estava ao lado de Michel Leiris. Peguei o Les Flambeurs d'Homme, de Griaule, e vi que ele citava Salassié em seus agradecimentos. Juntei algum léu-com-créu. Neste livro Griaule envereda pela Etiópia em pleno período facista italiano. Juntei algo mais para futuras costuras.
Peguei Leiris na estante. Um livro imenso, papel de bíblia, Miroir de l'Afrique. Na contracapa li que "nós pilhamos os negros para ensinar etnografia aos nossos alunos que futuramente vão aprender também à 'amá-los' e a pilhá-los". O livro concentrava, além deste pequeno trecho de um texto ali contido, o l'Afrique Fantôme, La Possession et ses Aspects Thêatraux chez les Éthiopiens de Gondar, Afrique Noir: la Création Plastique, entre outros textos, correspondências e documentos. Vi que o ivro estava um pouco blessé na lombada. A vendedora me fez um desconto de 20%. Ela sim, se preocupa com o futuro da antropologia francesa!
Deixei momentaneamente de lado o Griaule e empacotei Leiris. Abaixei novamente para ver o que me espreitava: uma estante com uma coleção de livros inéditos. Meus olhos bateram no nome de Emile Zola, título: Carnets d'enquêtes - Une ethnographie inédite de la France. Nem olhei preço: pra dentro! Sobre o livro, te escreverei em breve um novo e-mail, mas já posso te adiantar, meu amigo, que se trata de uma pérola rara. Cadernos de campo de Zola em suas deambulações por Paris, pelos mesmos 'coins' que me foi dado visitar pelas mãos e pelos passos de M. Février. Que luxo. Começo a achar que eu mereço.
A coisa ia indo de vento em popa. Vi a tradução francesa de Hans Staden, que contava para Augustin há algumas três semanas, e me decidi por fazêr-lhe um cadeau. Em francês ficou assim: Nus, Feroces et Anthropofages. Para Ketia, que faz anos dia 03, ensaquei um Capitães de Areia, do AMADO, Jorge. Salve Jorge! Por ser data especial, ela acabou levando - ainda não sabe - um disco do Gil. Sábado rolarão carinhos.
Continuei minha marcha matinal chez Gibert e um chamado me conduziu à parte dos livros esotéricos. Teve jeito não: entre Martine Segalen e Pierre Riffard, fiquei com o segundo. Trabalho muito concentrada nos problemas urbanos e tenho vontade de saber como esses homens que estão aqui e acolá se diferenciam no que não manifestam nas palavras dadas ao vento. Era a hora de presentear o meu espírito.
Estava de bom tamanho. Caixa, euros torrados e um sentimento de pairar acima da vida ordinária. Afinal, eu podia passar a carte bleu e pagar uma pequena fortuna em livros que jamais estarão em listas de revistas semanais. No saco ia o passaporte com visa universal e um bilhete para Hes. A mão que segurava o saco portava um corpo cujos pés pisavam em estrelas no trottoir das vitrines de 'fring' de um boulevard Saint-Michel evacuado das livrarias de renome de antanho.
Fontaine de Médicis. É lá o meu coin secreto. Sentei ao lado da neve, os passarinhos vieram cantar nos meus pés. Os passarinhos são franceses: destemidos, dão pitaco em tudo, falam sem parar. Mas são passarinhos, é gostoso ouvi-los, ainda mais assim tão de pertinho. Abri um dos meus presentes, li. Encontrei algumas de suas palavras sobre a palavra no L'Ésoterisme. Mestre, o mundo muçulmano, hindu, mesopotâmico, soufi, gnostico, cristão, xamânico japonês, taoista, confuciano, tântrico, branco
ou iboga (ou IBOGA) estão todos na tua sabedoria universal, meu querido professor de antropologia. Amém!
20 pra uma, 21 vers restaurante de la cité. Fome negra. Entro no RU e me sento com dois jovencitos chineses, que me desejam bonne apetite e partem com um au revoir. Fico só na table ronde, até que chega um sujeito. Era um negão. Senti que algo estava en train de se manifestar. Ele ajeita seu manteau, coloca a pasta na cadeira ao lado, perfila a bandeja. Uma preparação banal para o repas. Noto que antes de pegar nos talheres ele faz um sinal da cruz e numa passada rápida de olhos ele vê que eu o vejo. Ofereço-lhe água, lhe sirvo, e a pergunta vem imediatamente em seguida: "vous êtes...." - "bresilienne", respondo. Claro, porém pas evident,
retruco: "et vous?". - "Cameroon".
Dali la poooorte s'ooouuuvre...
- Brésil? J'envie d'aller là bas. Il y a beaucoup d'africaines au Brésil, non?
Como eu, há pessoas por aí também orgulhosas de suas racines. A associação Brasil-África parecia ali inevitável. Talvez fosse já a manifestação que comecei a gerar e gerir desde a manhã do dia de hoje.
Disse eu que conheci o Camarões através Roger Mila. Eu adorava Roger Mila, e torci pela equipe camaronesa naquela Copa de não sei quando. Ele tira uma revista de futebol da bolsa e me mostra uma fotografia de Roger Mila jantando com uma equipe chinesa em 1973. Equipe chinesa?
O comensal en face se engajou inteiramente e rapidamente na conversa. Perguntou de qual cidade eu era: Rio de Janeiro. "Ça veut dire rivière de janvier?". Eu disse oui. Ele me disse que em Camaròes também foram os portugueses que deram o nome, no século XVI: Rio de Camarões. No caso deles, tratava-se de um rio de fato, e cheio de crevettes, como ainda hoje. Ele estabeleceu inumeras correspondências entre os frutos e a gastronomia do Camarões e a brasileira. Me falou das bebidas (vinhos e licores) produzidas com a polpa da palmeira de açaí. Me contou dos pratos feitos à base de mandioca, banana, peixe. Disse que ele tinha um cacaueiro desde pequeno,
presente do seu pai. E me contou sobre o cacau, sobre o cultivo, sobre o gosto, sobre os procedimentos de colheita, secagem e uso. Sem piscar, ele passou a descrever que na sua tribu, e nas tribos africanas de maneira geral, os mais velhos são absolutamente venerados pelos mais novos. Não era possível. Apresentei a ele o que havia pensado hoje cedo na sala de espera do Centre Medical Saint-Marcel. Ele me corrigiu: "il ne s'agit pas de respect à des regles. Pour nous, c'est naturel considerer les gens agées. Ils ont déjà vecú, ils ont déjà vu". Et voilà: eles VIRAM.
ELA, seu nome. Ela me disse que as tribos são muito próximas da natureza. Então, eles não precisavam de muito. Para ele, a vida é simples - frase esta que repetiu diversas vezes para me introduzir em cada aspecto do que queria me contar sobre sua vida em Camarões. "La vie est simple, on l'observe beaucoup". Sua vó, por exemplo, nunca precisou de relógio: ela ouvia os passarinhos e sabia, por cada canto, qual era o momento do dia. "c'est simple, mais demande l'observation, quand même". Ele versava sobre o que senti vendo as damas africanas na sala de espera! Sem querer, ele falava também de Ogotemêli ! Ele falava era da África !
Ela tentou outro modo de me dizer as coisas simples. "Les français, par exemple". Com esse sujeito de comparação, ele começou a me apresentar suas impressões sobre essa estranha sociedade no seio da qual me encontro. Para ele os franceses não valorizavam os mais velhos de suas famílias. Um menino ou uma menina não precisavam saber a história de seus antepassados. Isso não é o mais importante para um casal de pais franceses. São outros os valores transmitidos para que essa criança siga seu caminho no mundo, segundo Ela. "Vous m'avez expliqué que votre prenom est à cose de vos ancêtres, votre grand-mère paternal et les parents de votre grand-père paternal aussi étaient libanaises. Vous connaissez vos racines". Eu sorri. Eu sorri, ora! Ele, ou melhor, Ela reconhecia na transmissão de um valor de minha família um valor fundamental em sua tribo, naquele continente onde passei a manhã. E continuou: os franceses não se importam com seus velhos. Em Nice, onde ele estava fazendo seu DEA em Finanças, em Nice faz calor, e os velhos ficam esquecidos nas casas de repouso, expostos nus nas varandas, aos cuidados das enfermeiras com as quais não têm qualquer vínculo histórico. Os franceses são tristes, para Ela. E racistas. A colonização se resume em: em te dou, se você me der. Mas se você não me der, eu pego.
A colonização colocou fronteiras onde não existiam, e ignorou as existentes. A África é tribal. "Encore aujourd'hui", eu disse. E ele me respondeu: "pas encore aujourd'hui. C'est comme ça". Minha cabeça evolucionista caiu definitivamente ali. A burocracia afastou tentou afastar o homem tribal da natureza, mas isso não acontece totalmente em toda a África.
A burocracia não reconhece os "guerriseurs". O homem fica doente e vai ao hospital. Mas se ele tem uma família, ele pode ser indicado à um curandeiro, a um feiticeiro que vai dizer seu nome sem o conhecer. Aí ele me falou do IBOGA. Sua tribo faz o Iboga. Sua tribo é a dos "cochons", é a tribo do porco. Mas eles comem o porco, e toda carne de caça. Sua tribo existe também entre os pigmeus. Os pigmeus são maravilhosos, ele me disse. E eu ri e contei pra ele que existe no Brasil um programa de entrevistas (O Jo Soares) onde uma vez foi lá a organizadora de um grande festival de "música do mundo", que levou com ela um grupo de 15 músicos pigmeus. "Todos se sentaram no chão, com as pernas esticadas. Eu vi aquela gente ali, num studio cheio de luz artificial e pensei - mas o que é que eles estão fazendo ali!". Ele riu muito e reforçou que eles realmente são muito ligados à natureza. Sua tribo, então, é a do porco. Mas havia entre eles pessoas da tribo do "foie d'elephante", a tribo do "fígado de elefante", e que todas essas tribos
coabitam tranquilamente, pois uma das regras é se casar com pessoas que não sejam da mesma tribo. "Ça que tu me raconte me semble trés beau, Ela. C'est une ouverture!". Ele disse, "voilà, c'est une ouverture".
Ela lembrou-se de me dizer que eles produzem muitas bebidas alcóolicas. E aí ele riu, e começou a enumerá-las. E explicou porque ria: era porque conversando comigo ele se dava conta de como eles gostam de beber e de dançar. "Par exemple, pendant le jour, tu peux voir les gens dans les bars des villages en dansant". E versou algo sobre o barulho, dizendo que para eles não importa o barulho que você faça. Se voce quer ficar quieto no seu canto ninguém vai te perturbar, mas o "normal" é a reunião, a festa, são as coisas simples da vida, como o nosso encontro ali na mesa do restaurante universitário, por exemplo. Me lembrei da Cruzada. Mais precisamente da
"cruzada contra as manifestações festivas" naquele conjunto habitacional do Leblon, no Rio de Janeiro, onde a festa, a bebida e o barulho ganharam conotações de imoralidade.
Ela me disse que eu serei uma benvinda em sua casa no Camarões. Ele, Ela, continuou dizendo que gostaria de me rever. Mostrei para ele o livro do Michel Leiris que acabara de comprar. E ressaltei que para mim também a vida era feita desses encontros formidáveis, e que hoje, especialmente, estava me sentindo muito feliz desde cedo com as observaçoes que estava fazendo ao longo de minha journée.
Ela me contou um pouco mais sobre o Iboga. Eles pegavam uma colher de café e colocavam nela uma dose de uma mistura feita com a raíz do 'ngosso', chamada 'ha-a'. Pela sua descrição, me lembrei da ayhuasca, e contei pra ele que no Brasil eu participava de cerimônias que eram assim: e descrevi a mistura indígena, kardecista e católica que foi feita nos confins da Amazônia por um velho seringueiro do Maranhão, filho de escravos libertos. Ele me disse que se assemelhava bastante ao iboga, e me contou mais sobre os feitiços e curas. Há poções que nos tornam invisíveis, poções sobretudo utilizadas para a caça, para que um elefante, por exemplo, não perceba a presença do caçador. E que nos cultos há um momento onde "a porta se abre". Péra aí: a imagem da porta está também no esoterismo que frequento, e está também em todos os lugares onde existe este elemento - a porta - utilizado para separar ambientes. E Ela complementou: em Camarões há muitos ambientes, "il
y en a plusieurs, plusieurs!".
Neste momento Philippe, meu amigo francês com quem um dia de maio do ano passado almocei no mesmo restaurante e que, depois dos "d'où est-ce que tu vient" e que tais, descobrimos que ambos conhecíamos o Santo Daime e éramos antropólogos, Philippe chega para me dizer que estava ali com Kaivan, nosso yogui iraniano. Ela me disse que vai me dar de presente um livro de um escritor do Camarões que narra as mudanças cotidianas que a colonização fez trucidar naquele universo simbólico.
Ela me convidou para um café. Disse que ia dar um "coucou" aos meus amigos e que nos encontraríamos no café. Falei com Philippe e Kaivan da maravilha que vinha de acontecer, e eles também foram nos encontrar no café, pois Philippe estuda os ritos de possessão, esteve no Gabão e conhece o Iboga. Tanto ele quanto Kaivan tomaram outra vez a raíz do 'ha-a' com um feiticeiro que veio do Gabão à Paris. Nos encontramos todos, então, no café e Philippe, etnólogo bem francês, começou a interrogar Ela como se fosse um agente da Gestapo. Ela ria com o seu interrogatório e tentava dizer que as coisas não se passavam nessa ordem que ele tentava explorar. Eu e Kaivan aproveitamos para "faire foutre", doucement, Philippe. Posso te dizer que Ela vai telefonar amanhã para o seu irmão no Camarões e pedir para ele comprar 300 gramas da raíz para que façamos juntos um rito aqui em Paris. Mas não se preocupe, mestre, pois o 'ngosso' é permitido na França, e a exportação do Camarões é igualmente permitida. A exportação é interditada apenas do Gabão, por ordem das leis locais.
No café, Ela ainda falou que a poligamia é legítima entre eles, desde que seja com o acordo da primeira mulher. "Mais elles n'acceptent jamais". E eu quis saber um pouco mais como isso se passava, pois sempre tive curiosidade de saber como se geria o ciúme. Ou se o ciúme era um sentimento dos ocidentais, surgido da um sentimento de posse associado às sociedades onde a propriedade era regida segundo certos princípios. Felizmente Ela me indulgiu: "pas de tout!". Os homens forçam a primeira mulher a aceitar as outras que chegam, e entre elas há uma constante tensão. Este ideal da família poligâmica onde a paz reina entre todas é apenas um ideal. Ufa!
Posso continuar a mostrar as minhas garras sem medo nem culpa. Agora fodeu!
Bom, maître, estou querendo escrever a minha tese. Cada vez mais eu vejo que fiz a escolha certa, pois não poderia trilhar um caminho melhor que me pudesse franquear, ou melhor, 'casar' uma busca espiritual com uma busca científica de compreensão dessa espécie à qual pertenço.
Vou deixar os celenterados e as gramíneas para a próxima encarnação!
sòi Dá g'òi vê hoa Lan,
Soraya
Miroir de l'Afrique - Epílogo
Querido,
Imediatamente após clicar 'enviar', parti para pegar o RER C na estação Saint-Michel em direção à banlieu de Savigny sur Orge. Chego ao cais da linha em questão e no auto-falante dá-se um recado de interdição entre Choisy le Roi et Juvisy. Minha estação era a seguinte, e portanto perguntei à menina (adivinha a cor?) ao meu lado se a mensagem era a que eu havia compreendido. Ao lado dela havia um rapaz (adivinha a cor?) que ouviu o que eu perguntava e tomou a iniciativa de complementar a informação, dizendo que o meu trem se aproximava, era o mesmo que ele pegaria. Agradeci - nossa, como eu agradeci o dia de hoje - agradeci imensamente a imigração africana na França e, andando, peguei o trem.
Nota importante: toda quarta à noite eu parto para Savigny. É sagrado. É uma ordem. Cheguei cedo na casa do Jacques, esse amigo na casa de quem eu faço minhas meditações conjuntas, e fiquei na sala observando os quadros do Julien, um outro amigo e um artista extraordinário que veio do Benin e mora no seu grande studio squatteur ao lado da casa de Jacques, com seus dois filhos. Pois fiquei ali em frente a um de seus quadros, apreciando todos aqueles traços e o uso dos diferentes materiais e texturas. A temática do seu trabalho é sempre uma: o vodu, a escravidão, o deracinement vers l'Amerique. Me detive diante de um quadro que realmente me impressiona pela quantidade de detalhes, um épico, um Mahabarata, um Balzac negro: um navio onde se carrega, à cores, seus ancestrais do Benin para o novo mundo. Em
volta, em marrom e branco, estão os espíritos vestidos com as roupas do culto. E nos mastros, nus e acorrentados, os negros já escravizados. Tudo isto é para ser descoberto, pois a pintura é feita de milhares e milhares de traços finos e muitas dimensões. A gente vê o vento nas velas, as pirâmides de água das ondas amolestadas pelo singrar do negreiro, a conferência dos homens e dos espíritos, o destino presente na dor e a presença das forças da natureza.
É...eu me afasto, páro e penso, olhando o chão: "quanto trabalho. que presente para o Jacques. A amizade só pode ser verdadeira". Jacques então chega, e traz consigo uma mulher, Marie Anie, que chegara havia duas semanas do...Sudão ! Rapidamente travamos uma conversa que parecia ter começado a partir de uma vírgula, como se recuperássemos um diálogo rompido por alguma circunstância sem importância.
Então a África estava realmente decidida a seguir meus passos hoje. Ah! E sem contar o gato preto que desde antes de ontem me espera na entrada da Maison du Brésil. Ele me descobriu há dois dias, e miando me segue até o momento em que eu faço o último carinho e fecho a porta.
Voltei com Marie Anie para Paris no trem das 22:00. "Et alors, vous etiez au Sudan, dans un champ de refugiés?". Ela começou a me contar. Trabalha para a Cruz Vermelha e passou dois anos no norte do Sudão. No inverno faz frio, no verão não tem sombra. São 60 mil habitantes nesse campo, nesse espaço que sobra num território destruido pela guerra. Os sudaneses do norte são majoritariamente muçulmanos, mas de um islamismo pouco ortodoxo. Eles não consomem álcool, evidentemente, mas as mulheres usam véus coloridos e se maquiam bastante. Mesmo lá, no campo de refugiados, pois de provisória a vida deles só é no nome. Eles estão em situação provisória há vinte anos e só Alah sabe, se é que sabe, quando - e se é que - isso mudará. Antes disso
eu respondi o que ela queria saber: sobre a minha tese. Expliquei como nunca conseguira explicar. Acho que hoje foi um dia importante realmente para precisar muitos pontos. Pontos que não vieram do nada, mas hoje, com a atenção que os eventos do dia me demandaram, acabei precisando no embalo de toda essa concentração que, graças ao meu bom Alah, não era a de uma escola de samba!
Bom, meu amigo, esse e-mail não poderia deixar de seguir. Agora posso dormir em paz pois está tudo registrado em duas cartas para você.
Ontem estive com Anne Raulin. cheguei atrasada à Nanterre, e quando entro na sala vi que ela falava da antropologia brasileira, dizendo que a idéia de antropofagia no nosso égard anthropologique estava mesmo na de uma antropofagia cultural. Na hora o meu assanhamento crítico do lado infantil aflorou e no silêncio detonei diversas apreciações ao que acabara de ouvir. Vendo que meu coração batia acelerado tratei de me aquietar e disse a mim mesma: "Soraya, aprume-se! Essa atitude de estudante contestadora implacávelmente aveugle é já obsoleta!", e assim entendi que Anne é
francesa, e acessa o Brasil através da leitura. A recíproca era verdadeira. No meio de tudo ela me convocou à roda, e citou o que eu escrevi para ela no e-mail da semana passada, sobre o olhar militante na pesquisa. Em seguida, o que me deixou muito animada, pois se tratou de um estímulo, ela falou pra turma que já tinha um trabalho a ser apresentado, e seria um esforço comparativo entre dois casos de campo na América Latina: o meu, e o de Dorothée, esta moça que me procurou e que trabalhou numa favela na Guiana Francesa. Anne Raulin reforçou que tinha especial interesse nessa idéia nossa, pois concernia às suas pesquisas e era, de fato, um trabalho de
antropologia urbana. Donc, ficou combinado: vou falar do terrain. E sei que vou partir para uma longa dissertação sobre a cohabitação, e vou falar de Belleville e também da Vila Mimosa. Vai ser um bate-papo, vou separar as fotografias.
Saí com Dorothée, que me acompanhou até o trem. Essa moça faz o DEA em Paris X e eu perguntei se ela não queria tentar a bolsa via o nosso acordo para ir ao Brasil, trabalhar com a gente. Ela arregalou um olho, como se eu estivesse lhe dando um presente. É uma possibilidade, cabe a ela correr atrás. Falei de você. Sugeri a leitura do seu artigo publicado no livro do colóquio de Cerisy, escrevi teu nome pois ela queria procurar na internet também. Enfim, fiz o comercial. Ando cooptando. Parabolicamará.
Agora, enfim, estou quebrada.
Um beijo e bons sonhos !
Soraya

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