mercredi, avril 26, 2006

Viagem à Creta

O olhar de um primeiro dia procura o imperceptível, o micro, tudo o que se oculta sob a grandiosidade da paisagem ainda misteriosa. É um olhar sonhador. Tudo é para ele extraordinário na banalidade existencial...


A sensibilidade do recém-chegado que pisa devagarinho no chão alheio é altamente melindrosa face aos desabafos fatigados de rudes viajantes. Sim, Creta tem uma alma. Discordo simplesmente do que disse uma viajada d'outre mer. Acho mesmo que a alma que ela diz não perceber em Creta é a ausência de um artesanato exuberante que possa ser levado como souvenir. Alma não se vende. Ela é perceptível aos que desenvolveram a sensibilidade para o mundo dos éteres. O labirinto para encontrá-la é naturalmente invisível. Em Creta nós o sentimos muito menos pelos seus vestígios remotos, embora seja a ilha o berço do ocidente, do que pelo barulhinho indolente dos komboloys.

Se Jesus nasceu um dia, nisto não há nada de excepcional. Até o momento, e segundo o meu conhecimento, ele é o único à quem o fenômeno do renascimento se deu... Na Creta, país de uma só religião, o cristianismo ortodoxo, a Páscoa é a grande confraternização. Durante estes dias, a ilha se rende à sua real existência: um grande quintal das famílias extensas que nela habitam. Diante da importância do fato de um renascimento, os homens de Creta deixam seus cafés e integram suas famílias, com a única condição de beberem seus rakis e seus ouzos como se tratasse de água que passarinho bebe...

Talvez por isso a hospitalidade. Ela é também sinal de orgulho, importante dizer. Creio que quanto mais ortodoxo, mais louco é o cristão, e diante das luzes que os destilados da ilha fazem colorir no universo imaginário de seus filhos, creio que ali os gregos nos abordam para simplesmente falarem grego, pois ainda que tentando dizer que para mim eles estão falando grego, em sua lógica isto é sem importância: eles falam, então, doucement, senão para se fazerem entender, ao menos para mostrarem que gostariam de se fazer entender....

Passo à passo, jogamos no dorso da nossa experiência um cosmos de pequenos registros. Difícil é dizer: este lugar é assim. Prefiro o silêncio ao homicídio da realidade, ao assalto de sua riqueza e movimento. Neste quesito sim, me considero impressionista. Já quando o impulso me força a definir, parto do princípio, o surrealismo, e o mundo, enfim, se faz cubista. Não... não dá. Explicar é esteticamente um erro!

Então fica assim: um retrato é carregado de idealizações. Contudo, a face da realidade está sempre ali, refletida pelos nossos olhos que, por sua vez, são a manifestação de algum real, ainda que pequenino... No final das contas não há outro instrumento de medida da realidade que o nosso coração e desejo.