samedi, août 05, 2006

Acari

Eu estava lendo agora uma entrevista com o Marcos Alvito no JB em que ele diz: "em Acari não vai ninguém", pois fica nos confins da Ave. Brasil, não é como a Mangueira, que tem a escola de samba, nem como Vigário Geral, que depois da chacina recebe turistas, como lembrou o Seu Paulo lá de Cordovil.

E hoje, lá em Acari, um grupo de meninos de 8, 9 anos, viu a gente passar e a agente comunitária foi falar com eles, perguntar aquelas coisas que agente comunitário sempre quer saber: "e aí? vocês estão fazendo a escolinha do Péricles?". Uns estavam, um outro disse que não. Ia jogar futebol. Eles sacaram que a Maria Pita não era daqui - e muito menos dali - pelo rosto, por alguma coisa que não era a roupa - pois ela se veste com jeans, como eu, a letícia, a própria wanda. Mas enfim, um dos meninos, quando viu confirmada a impressão, soltou: "pô, um estrangeiro na minha área", como quem sonha.

E se dormi duas horas e meia essa noite foi muito: aqui em frente, no front, às quatro horas da manhã rolou uma pelada. Nêgo muito doido, gritando e bicando aquela bola pra tudo quanto é portão, banca de jornal. Às 5:30, quando o 47 começa a circular, ou ouvia o ônibus freiar pois o jogo não parava. Saio por volta das 7:15 e vejo uma porçào de cadeiras quebradas, pedaços de plástico e madeira, tudo aqui na esquina, em frente a faculdade.

Meu caro, confesso que umas duas ou três lágrimas caíram depois que cheguei desse longo dia em casa, dormi e novamente acordei agora há pouco. É que é foda: em cada curva de cada beco tem um garoto com um rádio, vigilante. Essa vigilância é que mata. Um constrangimento ensurdecedor, cego, andar por Acari. Os traços do que pode acontecer são muito visíveis. Não tem um muro sem marca de tiro. E quando é de fuzil, você caminha supondo que aquele buraco ali foi só o primeiro dos outros todos que marcam a casa também por dentro. Toda casa em Acari tem um muro alto que não é só para proteger: é para esconder e para evitar muitas outras coisas. Claro que tem sempre uma dama sentada numa soleira, mão na barriga, porque como tem mulher grávida! E eu acho que muitas ali têm é gravidez psicológica, como uma das mães de
Acari.

Essa mãe que conhecemos tava ali, 16 anos cultivando aquele pranto. Foto do filho, sorria mas tinha aquele olho de quem não acha graça. Só o esforço já era simpático. E soube pela nossa cicerone que o "caveirão" tava circulando. O caveirão é um carro cheio de cadáver fresco que a polícia faz circular pela favela, exibindo a renda do dia.

Tudo ali já foi atravessado por alguma tragédia. Porra, é muito ruim. Tem seta apontando para Gaza. Aí dá até pra rir. Porque humor sempre existe, morre bem depois da esperança. Mas os meninos vigilantes tem um semblante muito pesado, muito desanimado, excepcionalmente descrente, fechado. Só abre com um tapa ou com uma carreira. Só ali nas bocas, no meio daqueles odores de acetona e de maconha é que se via menino rindo. Nas quebradas, com rádios, quer dizer, no posto de vigilância, de atenção, é o peso da bala.

Que merda, meu amigo. Eu já estava cansada de me sentir coagida andando por aquelas vielas mas aí fomos almoçar numa birosca. Sentaram do nosso lado dois senhores. Os dois não conversavam. Não se olhavam. Ficavam olhando vagamente uma mosca, o chão. Sabe-se lá o que se passa naqueles pensamentos? Isso tudo contrastava muito com a gente. Sobretudo uma das argentinas, sorridente, falando com aquele sotaque, sem muita referência daquele mundo ali. O Rafael, bom moço, saudável. A Letícia tem um astral bom também. Eu olho pra ela e tenho certeza de que ela foi constrangida a botar certos pensamentos no saco para poder realizar o trabalho ali. Porque é difícil ver certas coisas, certos semblantes.

Quando chegávamos lá no final de um dos lados, na 'área do Ponto Frio', onde tem um mangue, a coisa começava a esvaziar, a ficar mais arejada, embora igualmente abandonada, com três gangorras quebradas, um balanço que, vazio, balançava no momento em que passamos como se fosse para evocar mesmo um sumiço, uma ausência. Que vida de merda. Mas seria pior se houvessem certos tipos de comparação. A gente se acostuma mesmo e é isso aí. Quando passamos pela gangorra, talvez tenha acontecido o fato que mais me marcou, apesar de toda a ambiência pela qual já havíamos passado. Um garoto, fisicamente muito parecido com o Pixote do filme do Babenco, nos ultrapassa olhando pro chão. Daquela presença eu só marquei os pés com chinelos e a calça de moletom, cada perna numa altura. Visto isso, ele dá um tapa numa das gangorras, que então tomba para o outro lado. Ele acelera o passo, ainda caminhando, e pára uns seis metros adiante do lado de um poste, na beira do meio fio, bem
diante de nós. A Wanda, nossa guia neste passeio dantesco, pára do lado dele para nos mostrar o galpão das cozinheiras comunitárias, e por um instante eu pensei que eles podiam ser conhecidos, e aí então me permito olhar para ele. Por acaso, ele olhava exatamente para mim nessa hora, e a gente cruzou os olhos. Nitidamente percebi que havia me enganado: ele olhava de forma ameaçadora, meio puto, meio triste, não estou exagerando. Ele era um infeliz. Novamente me vi impelida a desviar a vista, fingir que o ignorava. E aquele ouro todo no peito, sobre a camisa listrada, embaixo daquele gorro preto. Aquilo reluzia, uma massa, um troço maciço no peito, amarelo, um dedo de diâmetro. A Wanda disse que ele queria mesmo era se informar sobre nós, saber o que era, vigiar.

Voltar aquilo tudo de novo foi um suplício pra mim. É como um desfile de moda fotografado por umas pessoas ressabiadas que não entendem o que estamos fazendo ali. Multiplica a Vila Mimosa por 112. Dá Acari.

Pegar o metrô e voltar tudo, já com o espírito muito diferente do que aquele com o qual eu havia feito o mesmo trajeto pela manhã, era como voltar de um mercado com a sacola cheia de novas imagens e sensações. O Rio ficou escroto. Descer no Largo da Carioca com o conhecimento de mais uma conexão carioca foi ao mesmo tempo redentor e brochante. Porque ver as pessoas ali, naquele cenário do centro é uma coisa, e saber de onde cada um daqueles figurantes vem é outra. Igualzinho ao romantismo de um zoológico, quando lançamos uma pipoquinha aos macacos, um amendoim aos rinocerontes, uma uva aos jacarés e tudo parece tão perfeito, a mãe natureza tão sábia.

Porra, meu amigo, caralho. Não dá nem pra ter raiva, nem nenhum sentimento armado contra aqueles garotos, porque nego tá é muito entorpecido, muito fodido, muito confinado, muito 'envielado', 'embecado'. Como dizia o Manoel Bandeira: "de que me valem a baía, o outeiro, a Glória: o que eu vejo é o beco".

Saudades de Paris, puta que o pariu!

1 Comments:

Anonymous Anonyme said...

Enxadrista minha querida!!!
Deletei meu brog, parei de ler coisas na internet, voltei e ainda é o mesmo post.... Imagino que a vida anda agitadíssima. Conta tudo!
beijosdri

4:09 PM  

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