dimanche, mai 29, 2005
Achei algo de 'bem francês' na carta dessa vítima do ladrão de bicicletas. Trata-se de algo trágico: ele (ou ela) anuncia aos seus vizinhos, à concierge e aos piétons que sua confiança partirá deste mundo - se a sua vélo não voltar pra casa.
vendredi, mai 27, 2005
Caderno de campo - conseil du quartier 20éme
Oi, Mello
Fui hoje lá pra reunião do conselho de moradores de Belleville, numa escola na rue Etienne Dolet, paralela à rue Menilmontant. Cheguei um pouco cedo e andei por ali, que lugar interessante. Paris só tem estrangeiros mesmo. Caminhei seguindo o trottoir com todos aqueles bazares árabes em busca de um chá verde (salvei meu estômago com ele) e vi, em um beco, uns homens agrupados diante de uma pequena porta. Imaginei mil coisas relativas ao universo masculino que conheço: ou havia ali uma TV transmitindo algum jogo, ou era um puteiro, ou alguma outra coisa qualquer sendo vendida. Era um bequinho. Continuei até a loja, comprei o chá de um argelino e, quando voltei pelo mesmo caminho, olhei novamente pro beco. Lá estava a turma toda ajoelhada de frente pra Meca.
A reunião começou pontualmente às 19:00. Ela acontece a cada 3 meses, e a transcrição que li com o Cefai na Mission de La Democracie Local havia sido gravada na última, qui a eu place en février. Cheguei uns dez minutos antes, fui falar com a Marion e fiquei ali vendo as pessoas chegarem. De repente entrou um senhor apertando a mão de todo mundo. A minha, inclusive. Era o maire do 20 éme, um político. A Marion assinalou isso.
Havia uma mesa enorme, onde foram se sentando os membros da diretoria do conselho, pessoas engajadas na Democracie Locale e da Mairie. Estava também na mesa o Raul Velasco, o artista plástico que conhecemos naquele domingo. Às 19:05 começou a reunião, com mais ou menos 40 pessoas. Antes das 20:00 a sala já estava repleta. Algo em torno de 80 pessoas de ambos os sexos e idades. Cada um foi chegando sozinho, como bom franceses que são. A pauta de discussão foi basicamente o Plano Locale d'Urbanismo (PLU) Uma secretária adjunta do maire apresentou o plano com o seu datashow, dizendo em seu preâmbulo que a Mairie entende o papel decisivo do quartier de Belleville na questão do logement social.
Do material que ela projetou, anotei algumas coisas: o PLU foi deliberado em 2001, quando fizeram o tal diagnóstico, entre outubro de 2001 à abril de 2002. Em 2003 começaram os debates sobre o projeto, mas a elaboração das propostas locais já estavam em andamento desde setembro de 2002, e seguiram até novembro de 2004, ano em que começaram a fazer a imprescindível enquête. Tudo isto, quer dizer, o plano, segundo o discurso da Mairie, teve sempre como objetivo "reduzir as desigualdades sociais".
A partir de então começaram a aparecer mapas no telão. Primeiro foram mostrados os projetos urbanísticos destinados às portas de Lilás, Montreuil e Vincennes. Tive problemas com a compreensão nesse momento, porque estava anotando e ela estava dando muitas referências de cada uma dessas portas - dommage. Depois entrou em cena mais outro mapa; este mostrando Paris dividida em 11 zonas, 07 POS de quartiers, 10 zones UO e 43 PAZ. Não faço idéia do que tratam essas siglas, e em seguida vieram muitas e muitas outras. Mas o segundo mapa mostrava Paris dividida em outras 04 zonas: Zonas
Verdes (praças e parques), Zonas Naturais (os bois de Bologne e vincenne), Zona Urbana de Grandes Serviços Urbanos (com hospitais, indústrias, comércio) e Zona Urbana Geral. Em seguida, ela apresentou outro quadro mostrando o COS (Coeficiente de Ocupação do Solo), onde aparecia uma Paris em que o Oeste e o Centro são identificados como áreas eminentemente residenciais, e o Leste e o Norte como áreas mais "embaraçadas", diante do quadro das classificações da Mairie.
Tudo isso para mostrar à audiência, imagino, como a cidade é pensada, em que termos e com quais propósitos, para em seguida conduzir a apresentação para o foco de interesse dos que estavam ali: os moradores de Belleville. Só uma nota: perguntei pra Marion se os muçulmanos, os chineses e os outros tantos grupos que moram ali participavam dessas reuniões, mas pas de tout. Continuemos, pois. Em relaçào ao quartier, foram projetadas fotos de batiments com vocações específicas, como, por exemplo, o 104 da rue de Coronnes, cuja vocação é para o abrigo de ateliers. A secretária enfatizou que caso ela seja um dia vendido, ainda assim será obrigatoriamente destinado para esse fim. Entráramos, então, no universo assegurado pelo label 'Proteção das Formas Urbanas e Patrimônio Arquitetural'. Mais siglas
vieram: TMP (Traitement Morphologique Particulieres), ou seja, "filets de hauteur" e volumétrie existente à conserver, quer dizer, proteçào dos espaços verdes internos, das cours, como formas urbanas a serem preservadas inclusive pelo seu teor de importância social, ou seja, é na cour que há um convívio entre moradores, uma troca, o que talvez impeça prejuízos psicológicos, surtos psicóticos.
Nesse momento, passou por mim uma lista de abaixo assinado para a abertura de uma passagem entre a rue des Cascades e a rue de la Mare. O pedido era promovido pela La Bellevilleuse, Les Coteaux de Belleville e pelo Les Ateliers d'Artistes de Belleville, que pretendiam com isso "rétablie la situation initiale prévue par le projet: que le public puisse fréquenter le jardin Simone Signoret et q'un gardier de square soit embauché pour assurer la sécurité des lieux".
A secretária adjunta continuou sua apresentação mostrando os imóveis a serem protegidos: um na esquina da rue de Belleville com rue de Tortille, outro no coin de r. de Belleville com Rebeval, o 38 da rue de Belleville, um no coin de Rue des Savies com Cascades, o 5 rue Ernest Lefévre, 116 quai Kennedy (Radio France). As formas de abertura das janelas, o comércio au rés de chaussés e outras características que denotavam construções do século XVI e XVII foram assinalados como aspectos importantes a serem preservados no bairro. E ainda o chamado Setor de Maisons et Vilas, onde estavam sob proteção as cours, de maneira a guardar também uma volumetria específica (certamente é ignorância minha, mas não sei a que se refere essa volumetria: se à densidade, se à chuva, se ao verde, não sei).
Outro item, introduzido pelo interior, era o chamado Proteção da Paisagem Urbana: respeito às normas de construção, às posturas do quartier. Mais mapas e também plantas com medidas de altura de telhado, "pé direito" (eu acho) e andares. A cour novamente entrou nas observaçòes, como sendo necessário proteger o chamado "espaço verde interior". Para o verde surgiram mais siglas: EVP (espace vert à proteger), ELV (espace libre à vegetalizer), ELP (espace libre à proteger) e EAL (espace à librer).
Depois de tudo, foi dito ainda que os moradores podem acessar o plano pela internet e, ainda, terão disponíveis no outono o bilan dessa última enquête feita no quartier. Outra nota: a secretária disse que as pessoas poderiam endereçar suas dúvidas e sugestões em seu próprio nome, mas que era sabido e notório que o peso do coletivo era muito maior. Dito isso, um dos membros do conseil lembrou que "as pessoas têm mania de reclamar, mas se esquecem sempre do mais importante: de dizer o que estão querendo".
Os presentes então começaram a fazer perguntas. A primeira que surgiu foi sobre um estacionamento de velô. Outra foi sobre como proteger os espaços verdes, outra sobre os subsolos dos batimentes de Belleville. Houve ainda uma crítica sobre a preservação de um dos lados da rue de La Villete (o lado que pertence ao 20) em relação ao lado que pertence ao 19.
O mesmo homem que falou das reclamaçòes de muitos moradores criticou também os arquitetos: "Eles têm uma visão muito reduzida dos usos do bairro". Também me chamou a atenção como que a vida do quartier, os seus usos e a arquitetura em cada rua foram expostas com tanto conhecimento pelos que expuseram suas opiniões. Parecia haver uma relação íntima dos moradores com o bairro. Mas eu queria dizer que em nenhum momento um ou outro grupo foi mencionado, quer dizer, acusado por qualquer tipo de mazela do bairro. Minutos antes eu estava vendo alguns muçulmanos rezando de frente pra Meca - ou de costas pra Jerusalém? Umas africanas carregando seus filhos em tipóias. Pensei também muito na Cruzada, e pensei também na reunião da Regional Sul da FAM-RIO e do Congresso da Federação. Nessas as acusações ao outro são frequentes. Aliás, não existe reunião ali em que não haja alguém para se atirar "culpas".
Havia uma mesa onde estavam dispostos vários papéis sobre o bairro, jornais, folders e, o mais supreendente, um convite feito pela Mairie do 20 com a pauta da reunião de hoje. Peguei todos.
Falei pra Marion que vou tentar escrever algo sobre essa reunião de hoje e trocar com ela algumas impressões. Vai ser uma boa oportunidade para ter o retorno de alguém que milita nas associações de quartier de Paris.
Amanhã vou fazer um exame médico e quando voltar, vou tentar falar com você, ok?
Um beijo, boa noite
Soraya
Fui hoje lá pra reunião do conselho de moradores de Belleville, numa escola na rue Etienne Dolet, paralela à rue Menilmontant. Cheguei um pouco cedo e andei por ali, que lugar interessante. Paris só tem estrangeiros mesmo. Caminhei seguindo o trottoir com todos aqueles bazares árabes em busca de um chá verde (salvei meu estômago com ele) e vi, em um beco, uns homens agrupados diante de uma pequena porta. Imaginei mil coisas relativas ao universo masculino que conheço: ou havia ali uma TV transmitindo algum jogo, ou era um puteiro, ou alguma outra coisa qualquer sendo vendida. Era um bequinho. Continuei até a loja, comprei o chá de um argelino e, quando voltei pelo mesmo caminho, olhei novamente pro beco. Lá estava a turma toda ajoelhada de frente pra Meca.
A reunião começou pontualmente às 19:00. Ela acontece a cada 3 meses, e a transcrição que li com o Cefai na Mission de La Democracie Local havia sido gravada na última, qui a eu place en février. Cheguei uns dez minutos antes, fui falar com a Marion e fiquei ali vendo as pessoas chegarem. De repente entrou um senhor apertando a mão de todo mundo. A minha, inclusive. Era o maire do 20 éme, um político. A Marion assinalou isso.
Havia uma mesa enorme, onde foram se sentando os membros da diretoria do conselho, pessoas engajadas na Democracie Locale e da Mairie. Estava também na mesa o Raul Velasco, o artista plástico que conhecemos naquele domingo. Às 19:05 começou a reunião, com mais ou menos 40 pessoas. Antes das 20:00 a sala já estava repleta. Algo em torno de 80 pessoas de ambos os sexos e idades. Cada um foi chegando sozinho, como bom franceses que são. A pauta de discussão foi basicamente o Plano Locale d'Urbanismo (PLU) Uma secretária adjunta do maire apresentou o plano com o seu datashow, dizendo em seu preâmbulo que a Mairie entende o papel decisivo do quartier de Belleville na questão do logement social.
Do material que ela projetou, anotei algumas coisas: o PLU foi deliberado em 2001, quando fizeram o tal diagnóstico, entre outubro de 2001 à abril de 2002. Em 2003 começaram os debates sobre o projeto, mas a elaboração das propostas locais já estavam em andamento desde setembro de 2002, e seguiram até novembro de 2004, ano em que começaram a fazer a imprescindível enquête. Tudo isto, quer dizer, o plano, segundo o discurso da Mairie, teve sempre como objetivo "reduzir as desigualdades sociais".
A partir de então começaram a aparecer mapas no telão. Primeiro foram mostrados os projetos urbanísticos destinados às portas de Lilás, Montreuil e Vincennes. Tive problemas com a compreensão nesse momento, porque estava anotando e ela estava dando muitas referências de cada uma dessas portas - dommage. Depois entrou em cena mais outro mapa; este mostrando Paris dividida em 11 zonas, 07 POS de quartiers, 10 zones UO e 43 PAZ. Não faço idéia do que tratam essas siglas, e em seguida vieram muitas e muitas outras. Mas o segundo mapa mostrava Paris dividida em outras 04 zonas: Zonas
Verdes (praças e parques), Zonas Naturais (os bois de Bologne e vincenne), Zona Urbana de Grandes Serviços Urbanos (com hospitais, indústrias, comércio) e Zona Urbana Geral. Em seguida, ela apresentou outro quadro mostrando o COS (Coeficiente de Ocupação do Solo), onde aparecia uma Paris em que o Oeste e o Centro são identificados como áreas eminentemente residenciais, e o Leste e o Norte como áreas mais "embaraçadas", diante do quadro das classificações da Mairie.
Tudo isso para mostrar à audiência, imagino, como a cidade é pensada, em que termos e com quais propósitos, para em seguida conduzir a apresentação para o foco de interesse dos que estavam ali: os moradores de Belleville. Só uma nota: perguntei pra Marion se os muçulmanos, os chineses e os outros tantos grupos que moram ali participavam dessas reuniões, mas pas de tout. Continuemos, pois. Em relaçào ao quartier, foram projetadas fotos de batiments com vocações específicas, como, por exemplo, o 104 da rue de Coronnes, cuja vocação é para o abrigo de ateliers. A secretária enfatizou que caso ela seja um dia vendido, ainda assim será obrigatoriamente destinado para esse fim. Entráramos, então, no universo assegurado pelo label 'Proteção das Formas Urbanas e Patrimônio Arquitetural'. Mais siglas
vieram: TMP (Traitement Morphologique Particulieres), ou seja, "filets de hauteur" e volumétrie existente à conserver, quer dizer, proteçào dos espaços verdes internos, das cours, como formas urbanas a serem preservadas inclusive pelo seu teor de importância social, ou seja, é na cour que há um convívio entre moradores, uma troca, o que talvez impeça prejuízos psicológicos, surtos psicóticos.
Nesse momento, passou por mim uma lista de abaixo assinado para a abertura de uma passagem entre a rue des Cascades e a rue de la Mare. O pedido era promovido pela La Bellevilleuse, Les Coteaux de Belleville e pelo Les Ateliers d'Artistes de Belleville, que pretendiam com isso "rétablie la situation initiale prévue par le projet: que le public puisse fréquenter le jardin Simone Signoret et q'un gardier de square soit embauché pour assurer la sécurité des lieux".
A secretária adjunta continuou sua apresentação mostrando os imóveis a serem protegidos: um na esquina da rue de Belleville com rue de Tortille, outro no coin de r. de Belleville com Rebeval, o 38 da rue de Belleville, um no coin de Rue des Savies com Cascades, o 5 rue Ernest Lefévre, 116 quai Kennedy (Radio France). As formas de abertura das janelas, o comércio au rés de chaussés e outras características que denotavam construções do século XVI e XVII foram assinalados como aspectos importantes a serem preservados no bairro. E ainda o chamado Setor de Maisons et Vilas, onde estavam sob proteção as cours, de maneira a guardar também uma volumetria específica (certamente é ignorância minha, mas não sei a que se refere essa volumetria: se à densidade, se à chuva, se ao verde, não sei).
Outro item, introduzido pelo interior, era o chamado Proteção da Paisagem Urbana: respeito às normas de construção, às posturas do quartier. Mais mapas e também plantas com medidas de altura de telhado, "pé direito" (eu acho) e andares. A cour novamente entrou nas observaçòes, como sendo necessário proteger o chamado "espaço verde interior". Para o verde surgiram mais siglas: EVP (espace vert à proteger), ELV (espace libre à vegetalizer), ELP (espace libre à proteger) e EAL (espace à librer).
Depois de tudo, foi dito ainda que os moradores podem acessar o plano pela internet e, ainda, terão disponíveis no outono o bilan dessa última enquête feita no quartier. Outra nota: a secretária disse que as pessoas poderiam endereçar suas dúvidas e sugestões em seu próprio nome, mas que era sabido e notório que o peso do coletivo era muito maior. Dito isso, um dos membros do conseil lembrou que "as pessoas têm mania de reclamar, mas se esquecem sempre do mais importante: de dizer o que estão querendo".
Os presentes então começaram a fazer perguntas. A primeira que surgiu foi sobre um estacionamento de velô. Outra foi sobre como proteger os espaços verdes, outra sobre os subsolos dos batimentes de Belleville. Houve ainda uma crítica sobre a preservação de um dos lados da rue de La Villete (o lado que pertence ao 20) em relação ao lado que pertence ao 19.
O mesmo homem que falou das reclamaçòes de muitos moradores criticou também os arquitetos: "Eles têm uma visão muito reduzida dos usos do bairro". Também me chamou a atenção como que a vida do quartier, os seus usos e a arquitetura em cada rua foram expostas com tanto conhecimento pelos que expuseram suas opiniões. Parecia haver uma relação íntima dos moradores com o bairro. Mas eu queria dizer que em nenhum momento um ou outro grupo foi mencionado, quer dizer, acusado por qualquer tipo de mazela do bairro. Minutos antes eu estava vendo alguns muçulmanos rezando de frente pra Meca - ou de costas pra Jerusalém? Umas africanas carregando seus filhos em tipóias. Pensei também muito na Cruzada, e pensei também na reunião da Regional Sul da FAM-RIO e do Congresso da Federação. Nessas as acusações ao outro são frequentes. Aliás, não existe reunião ali em que não haja alguém para se atirar "culpas".
Havia uma mesa onde estavam dispostos vários papéis sobre o bairro, jornais, folders e, o mais supreendente, um convite feito pela Mairie do 20 com a pauta da reunião de hoje. Peguei todos.
Falei pra Marion que vou tentar escrever algo sobre essa reunião de hoje e trocar com ela algumas impressões. Vai ser uma boa oportunidade para ter o retorno de alguém que milita nas associações de quartier de Paris.
Amanhã vou fazer um exame médico e quando voltar, vou tentar falar com você, ok?
Um beijo, boa noite
Soraya
jeudi, mai 26, 2005
mea culpa
Há vida além da norma ici, c'est vrai. Uma cidade como outra qualquer, onde é preciso descobrir onde se encontra a cartilagem do calcanhar de Aquiles. Et, voilá! Elle est lá bas, au Pigalle, biensûr, mais aussi au Gare du Nord, onde aprés des bières demi de Leffe belge j'ai reçu le numero de Romuald, le serveur d'Aux Villes du Nord, gentilesse - on peut dire comme ça - donné à cose des moules et du demi bière "au montants". Ou à cose de mon charm, quand même!
Mas qu'ils y ont, ils y ont, des petits enferns avec des lumiéres bleu au toillete et des gens en se frottant au fond du comptoir. Era tudo que eu pedi à Deus! Que "saudade" desse aroma, disons, "pas trop jolie".
Graças ao google é possível ver au tour du monde quais são as imagens do Pigalle e da Gare du Nord. Pigalle se resume à sexo (trés limité, par contre, au moins à moi) e a Gare du Nord, claro, à gare. Mas há muito mais entre o céu do norte e o trottoir da gare do que pode imaginar a nossa vã filosofia calcada nas imagens do google.
BIENSÛR!
Na próxima, vamos à sociologia, pois tenho aqui uma bolsa do governo brasileiro. Par contre, isso não interessa à persone qu'à moi. "Brésiliene: Michnicht voll!!" com essa tensão pós-colombiana!!!
Rien à voir. Pas la belge. Vive la france! Et Pernambuco, plus encore!!
Mas qu'ils y ont, ils y ont, des petits enferns avec des lumiéres bleu au toillete et des gens en se frottant au fond du comptoir. Era tudo que eu pedi à Deus! Que "saudade" desse aroma, disons, "pas trop jolie".
Graças ao google é possível ver au tour du monde quais são as imagens do Pigalle e da Gare du Nord. Pigalle se resume à sexo (trés limité, par contre, au moins à moi) e a Gare du Nord, claro, à gare. Mas há muito mais entre o céu do norte e o trottoir da gare do que pode imaginar a nossa vã filosofia calcada nas imagens do google.
BIENSÛR!
Na próxima, vamos à sociologia, pois tenho aqui uma bolsa do governo brasileiro. Par contre, isso não interessa à persone qu'à moi. "Brésiliene: Michnicht voll!!" com essa tensão pós-colombiana!!!
Rien à voir. Pas la belge. Vive la france! Et Pernambuco, plus encore!!
lundi, mai 23, 2005
Arts et Métiers
Meu amigo Flávio Tabak não se esquece de mim - ou do meu passado, não sei bem ainda -e por isso me mandou uma reportagem sobre a Vila Mimosa. Estava lá o Davi, ex-macaco gordo da Ong Davida; a "Tia" Verônica, que aluga quartos pras "meninas"; as próprias "meninas"; o vendedor de canetas e calcinhas; as velhas idéias "eu vou tirar você desse lugar" traduzidas agora, pros tempos modernos, sob o rótulo de mini-cursos de empreendedorismo. Trés bien!
Mas eu já ia me esquecendo que estavam lá também a culpa, a vítima, a evocação da família, a tal condição "de merda" que impede as meninas de irem ao cinema, comer no MacDonald e comprarem roupas, e que por tudo isso as levou até aquele último degrau. Viria daí a palavra degradação? Mas que merda, digo eu! O puteiro é o lugar mais tradicional existe! Paris parece um enorme puteiro, pelo menos nas ruas, pois é tudo tão certinho.
Eu tenho cá pra mim que aquela cidade que eu tinha no meu imaginário, cidade com músicas de Gainsbourg e com ares existencialistas (traduzindo: 'ninguém é de ninguém'), existe mas sem esse tipo de poivre. Existe na hora de pegar o metrô. Acho que o subterrâneo de Paris se encontra mesmo é dentro das casas.
Mas eu já ia me esquecendo que estavam lá também a culpa, a vítima, a evocação da família, a tal condição "de merda" que impede as meninas de irem ao cinema, comer no MacDonald e comprarem roupas, e que por tudo isso as levou até aquele último degrau. Viria daí a palavra degradação? Mas que merda, digo eu! O puteiro é o lugar mais tradicional existe! Paris parece um enorme puteiro, pelo menos nas ruas, pois é tudo tão certinho.
Eu tenho cá pra mim que aquela cidade que eu tinha no meu imaginário, cidade com músicas de Gainsbourg e com ares existencialistas (traduzindo: 'ninguém é de ninguém'), existe mas sem esse tipo de poivre. Existe na hora de pegar o metrô. Acho que o subterrâneo de Paris se encontra mesmo é dentro das casas.
vendredi, mai 20, 2005
Chez Comte, comme les positivistes!
Hier: rendez-vous Groupe Sociologie Politique et Morale, coordené par Luc Boltanski et Thévenot. O GSPM funciona na casa onde morou Auguste Comte, na rue Monsieur Leprince, número 10. Cheguei cedo, passei antes no Moutons au Cinq Pates pra ver uns casacos, uns lenços, enfin, faire mon poche se rendre compte de sa prochaine douleur!... E embaixo da casa do ícone inspirador da nossa república brasileira, uma lojinha de Acunpuntura. Entrei lá. Eram três senhoras chinesas na linha de frente, sendo que uma delas parecia ser a mãe. Dediquei todo o meu esforço para perguntar àquela senhora se, por acaso, havia ali algum livro que pudesse tratar de uma "maladie" que eu não sabia ao certo o nome em francês, mas que ainda assim tentei lhe explicar os sintomas usando como mediador de nossa suposta conversa o meu francês macarrônico. A senhora ouviu tudo, não sei se atentamente - os chineses sempre me dão uma sensação de incógnita - e, quando finalmente terminei minha explanação, descobri que ela não passara de um monólogo: a velha chinesa apenas balançou a cabecinha, como quem diz: "eu não entendo bulhufas de francês". E pensar que nesse dia eu havia almoçado com dois jovens chineses no restô da cité universitaire. O diálogo: "xi xing mi phu foo xu yang li". E de repente, não mais que de repente, um dos dois, não importa qual, soltava um "risinho", pois assim é que é. Impossível estabelecer qualquer conexão.
Mas perdi a noção do tempo. Saí de lá correndo e entrei na casa do Comte. Perguntei ao pintor pelo ms. Marc Breviglieri, e ele me recomendou que fosse subindo as escadas. Não estava entendendo nada daquele local, até porque até agora pude ver que até as horas os franceses informam errado - embora eu não goste de generalizações, isso aconteceu aos montes. Mas, enfim, sou brasileira: chupo cana e assobio. E cheguei lá.
À parte a ambiência, que está aqui gravada em minha mente, a retórica é demasiada para mim. A ambiência me toca na alma. O clima é individuoland. Tenho aprendido aqui mais do que pudesse ousar imaginar. A politesse do bonjour, bon soir e bon journée definem bem as relações. Fico desembaraçada dos sorrisos além desse segundo que a norma exige. Aliás, a norma aqui exige muito e sempre, de maneira a que o tal do indivíduo possa se manter íntegro na sua condição de ser único, pero igual. Só vivendo. Boltanski acredita que é assim no mundo todo. Seus seguidores também parecem que pensam assim, e alegam cegamente que qualquer homem é capaz de sofrer e de se sentir injustiçado, pero não compreendem que os sentimentos de injustiça dependem de uma compreensão de si próprio, de uma condição. Foi preciso dizer que havia ali um positivismo talvez emanado pelá alma penada de Comte, mas não disse. Disse só que talvez por ser brasileira eu pudesse compreender perfeitamente o que a formidável italiana ali dizia sobre a Itália, depois de uma viagem que passou pela Cidade Celestial de Santo Agostinho até o mundo 1984 de George Orwell. Mas não, o francês do GSPM não compreende que esse indivíduo cidadão só existe aqui. Que fora daqui a gente se demanda como parte de uma família da qual é praticamente impossível se desembaraçar, que temos ou não temos "berço". E que precisamos, catolicamente, dar aos pobres e descobrir que nossos pretos são limpinhos. E que andamos mais cheirosos do que nossos irmãos daqui porque temos uma mucama pra lavar nossas roupas toda semana e limpar nossos banheiros com a destreza de um cirurgião. Somos muito diferentes. E a principal diferença é que eu (brasileira) sei disso, mas eles (Boltanski e Pataroni, pelo menos) não sabem! Incroyable. Parece que estou constantemente sob o efeito do caapi aqui.
É preciso dizer que eu só me lembrava do Isaac Joseph ali, naquela sala hermeticamente fechada e silenciosa (os franceses são essencialmente diádicos, sabe, antropólogos?). Lembrei quando o Isaac acabou dizendo ao boltanski que estava muito mais interessada na forma como as pessoas roncavam à noite do que no "Novo Espírito do Capitalismo". Eu me senti com ele ali. Até porque havia atrás de mim uma foto do Isaac e outra do Mello, ambos rindo muito. Eram as únicas fotografias daquele laboratório. E logo de quem??!!!! Isaac e Mello, o que há pra mim de mais sólido e ousado em todo esse mar de pensamento e de retórica, aqui e acolá.
Não dá pra não acreditar em nada. Não posso ser cética mesmo.
Isso é a vida. É preciso ter olhos de ver.
Mas perdi a noção do tempo. Saí de lá correndo e entrei na casa do Comte. Perguntei ao pintor pelo ms. Marc Breviglieri, e ele me recomendou que fosse subindo as escadas. Não estava entendendo nada daquele local, até porque até agora pude ver que até as horas os franceses informam errado - embora eu não goste de generalizações, isso aconteceu aos montes. Mas, enfim, sou brasileira: chupo cana e assobio. E cheguei lá.
À parte a ambiência, que está aqui gravada em minha mente, a retórica é demasiada para mim. A ambiência me toca na alma. O clima é individuoland. Tenho aprendido aqui mais do que pudesse ousar imaginar. A politesse do bonjour, bon soir e bon journée definem bem as relações. Fico desembaraçada dos sorrisos além desse segundo que a norma exige. Aliás, a norma aqui exige muito e sempre, de maneira a que o tal do indivíduo possa se manter íntegro na sua condição de ser único, pero igual. Só vivendo. Boltanski acredita que é assim no mundo todo. Seus seguidores também parecem que pensam assim, e alegam cegamente que qualquer homem é capaz de sofrer e de se sentir injustiçado, pero não compreendem que os sentimentos de injustiça dependem de uma compreensão de si próprio, de uma condição. Foi preciso dizer que havia ali um positivismo talvez emanado pelá alma penada de Comte, mas não disse. Disse só que talvez por ser brasileira eu pudesse compreender perfeitamente o que a formidável italiana ali dizia sobre a Itália, depois de uma viagem que passou pela Cidade Celestial de Santo Agostinho até o mundo 1984 de George Orwell. Mas não, o francês do GSPM não compreende que esse indivíduo cidadão só existe aqui. Que fora daqui a gente se demanda como parte de uma família da qual é praticamente impossível se desembaraçar, que temos ou não temos "berço". E que precisamos, catolicamente, dar aos pobres e descobrir que nossos pretos são limpinhos. E que andamos mais cheirosos do que nossos irmãos daqui porque temos uma mucama pra lavar nossas roupas toda semana e limpar nossos banheiros com a destreza de um cirurgião. Somos muito diferentes. E a principal diferença é que eu (brasileira) sei disso, mas eles (Boltanski e Pataroni, pelo menos) não sabem! Incroyable. Parece que estou constantemente sob o efeito do caapi aqui.
É preciso dizer que eu só me lembrava do Isaac Joseph ali, naquela sala hermeticamente fechada e silenciosa (os franceses são essencialmente diádicos, sabe, antropólogos?). Lembrei quando o Isaac acabou dizendo ao boltanski que estava muito mais interessada na forma como as pessoas roncavam à noite do que no "Novo Espírito do Capitalismo". Eu me senti com ele ali. Até porque havia atrás de mim uma foto do Isaac e outra do Mello, ambos rindo muito. Eram as únicas fotografias daquele laboratório. E logo de quem??!!!! Isaac e Mello, o que há pra mim de mais sólido e ousado em todo esse mar de pensamento e de retórica, aqui e acolá.
Não dá pra não acreditar em nada. Não posso ser cética mesmo.
Isso é a vida. É preciso ter olhos de ver.
vendredi, mai 13, 2005
Cooperação Internacional 447/04
Ontem fui desviada do meu plano de estudo primaveril sob as árvores do Montsouris porque no meio do caminho havia uma cabine telefônica, e eu liguei pro meu orientador, monsieur Merlot Cavernet. Après le prémier "bonjour", il m'a dit: "Anota aí". Terminava ali minha promenade. Às 15:00 fui pro Mission de la Democracie Locale, participar de uma reunião sobre o conselho de moradores de Belleville, convidada pelo meu co-tutor de tese aqui na França, monsieur Daniel Cefai. Que sujeito bacana, generoso e simpatissíssimo.
Muitas coisas me chamaram a atenção nesse primeiro dia que eu já passei a considerar como o de início do meu trabalho de campo aqui. A primeira delas é o envolvimento participativo mesmo de pessoas jovens em tudo o que diz respeito à vida política da cidade, do país e da união européia. Não preciso nem ir muito longe. Basta ver como funciona uma associação de um dos 20 arrondissements de Paris. Outra coisa que me tocou foi a dinâmica desse nosso encontro, porque o Daniel simplesmente pegou a transcrição da última reunião do conselho, com suas quase 50 páginas de discursos os mais variados, e foi ponto por ponto chamando a nossa atenção para os argumentos dos habitantes, para as estratégias retóricas, a entrada dos "atores" importantes que articulam o jogo com o poder público, a remissão ao espaço local do bairro, a citação dos problemas locais, a tentativa de generalizá-los através do tal repertório de argumentação. Meus amigos da UFF: in loco eu pude ver que o cara é realmente de uma generosidade sem par. É o "Arènes publiques et la retorique du bien commun" e mais alguma coisa, pois que com o par de olhos doces e azuis para completar a explanação. Havia ainda mais um dado que não deixei passar em branco: notei que a transcrição de apenas um lado da fita K7 tinha dado 21 páginas de discursos, quando que uma reunião na Cruzada, um lado dava apenas, quando muito, 10 páginas. Comentei com o Daniel. O problema é que lá na Cruzada todo mundo fala ao mesmo tempo, e não demora cinco minutos a porrada começa a rolar verbalmente e os dedos começam a se levantar na frente dos narizes alheios. A moeda da incivilidade é realmente legitimada nessas arenas, de uma forma ilustrada assez sinteticamente pela velha "lei de gerson". Tipo: "deixa aquele desgraçado fazer primeiro o que é proibido porque aí eu vou lá e faço igual, porque eu também quero me dar bem, e ai de quem tentar me impedir, porque eu não sou otário, e quero saber primeiro do meu pirão".
A mais gritante diferença entre o público daqui e a coisa pública da gente no Brasil é essa. Aqui todo mundo é socializado - há mais de 200 anos - para se saber integrado e fundamentalmente responsável por um interesse que se traduz como coletivo. Chez nous, par contre, o público é o espaço onde a gente vai para tirar uma lasquinha. Talvez não seja exatamente isso, mas que ele é visto como uma batata quente que não se deve tocar demais (ou se deve devorar com todos os dentes), lá isso é. E aqui, por outro lado, nêgo se vê como parte constitutiva mesmo.
Acontece que depois de tudo tive o prazer de receber de presente um "parcour commenté" de Cefai pelo Marais e pela rue Ramponeau, em Belleville, onde vimos uma negociação de tráfico na base do maço de notas de 20 euros. Perguntei pro meu co-tutor que droga cara ela aquela, e ele me disse que devia ser a heroína. Pô! Em Portugal o gajo me pediu só 5 euros pruma dose! É mais fácil pegar um trem pro Porto do que se picar em Belleville, quand même!
De resto, continuo flanando um pouco, e escrevendo muito. Julien voltou há cinco dias e há dois dias nos encontramos em Montmartre. Ele arrumou um studio ao lado da Sacre Coeur, com todo o silêncio do mundo e perto de toda aquele burburinho que há ali por perto, com a vista da colina e o verde das pequenas ruelas lá de cima. É quase vizinho do falecido Erik Satie, vejam só que maravilha! Depois dum "HLM" indiano, comemos num tailandês de impressionar lá em Belleville, na esquina de Monsieur Merlot. Quel plaisir, mes amis.
E é por isso que eu vos darei o prazer de regarder-lá dois dos responsáveis por esse acordo Capes-Cofecub, responsáveis igualmente pela orientação da minha tese de antropologia urbana, e responsáveis certamente ainda pelo parto de muitas percepções que atualmente povoam esse mundo de mobilidade e de échange culturel: Cefai e Mello, ontem, num jantar na casa da Patrícia onde estavam todos que eu conheço aqui em Paris: kétia, kátia, augustin, mello, cefai e michel misse.
Parfait! Merci beaucoup, mon angel de la guard!
Muitas coisas me chamaram a atenção nesse primeiro dia que eu já passei a considerar como o de início do meu trabalho de campo aqui. A primeira delas é o envolvimento participativo mesmo de pessoas jovens em tudo o que diz respeito à vida política da cidade, do país e da união européia. Não preciso nem ir muito longe. Basta ver como funciona uma associação de um dos 20 arrondissements de Paris. Outra coisa que me tocou foi a dinâmica desse nosso encontro, porque o Daniel simplesmente pegou a transcrição da última reunião do conselho, com suas quase 50 páginas de discursos os mais variados, e foi ponto por ponto chamando a nossa atenção para os argumentos dos habitantes, para as estratégias retóricas, a entrada dos "atores" importantes que articulam o jogo com o poder público, a remissão ao espaço local do bairro, a citação dos problemas locais, a tentativa de generalizá-los através do tal repertório de argumentação. Meus amigos da UFF: in loco eu pude ver que o cara é realmente de uma generosidade sem par. É o "Arènes publiques et la retorique du bien commun" e mais alguma coisa, pois que com o par de olhos doces e azuis para completar a explanação. Havia ainda mais um dado que não deixei passar em branco: notei que a transcrição de apenas um lado da fita K7 tinha dado 21 páginas de discursos, quando que uma reunião na Cruzada, um lado dava apenas, quando muito, 10 páginas. Comentei com o Daniel. O problema é que lá na Cruzada todo mundo fala ao mesmo tempo, e não demora cinco minutos a porrada começa a rolar verbalmente e os dedos começam a se levantar na frente dos narizes alheios. A moeda da incivilidade é realmente legitimada nessas arenas, de uma forma ilustrada assez sinteticamente pela velha "lei de gerson". Tipo: "deixa aquele desgraçado fazer primeiro o que é proibido porque aí eu vou lá e faço igual, porque eu também quero me dar bem, e ai de quem tentar me impedir, porque eu não sou otário, e quero saber primeiro do meu pirão".
A mais gritante diferença entre o público daqui e a coisa pública da gente no Brasil é essa. Aqui todo mundo é socializado - há mais de 200 anos - para se saber integrado e fundamentalmente responsável por um interesse que se traduz como coletivo. Chez nous, par contre, o público é o espaço onde a gente vai para tirar uma lasquinha. Talvez não seja exatamente isso, mas que ele é visto como uma batata quente que não se deve tocar demais (ou se deve devorar com todos os dentes), lá isso é. E aqui, por outro lado, nêgo se vê como parte constitutiva mesmo.
Acontece que depois de tudo tive o prazer de receber de presente um "parcour commenté" de Cefai pelo Marais e pela rue Ramponeau, em Belleville, onde vimos uma negociação de tráfico na base do maço de notas de 20 euros. Perguntei pro meu co-tutor que droga cara ela aquela, e ele me disse que devia ser a heroína. Pô! Em Portugal o gajo me pediu só 5 euros pruma dose! É mais fácil pegar um trem pro Porto do que se picar em Belleville, quand même!
De resto, continuo flanando um pouco, e escrevendo muito. Julien voltou há cinco dias e há dois dias nos encontramos em Montmartre. Ele arrumou um studio ao lado da Sacre Coeur, com todo o silêncio do mundo e perto de toda aquele burburinho que há ali por perto, com a vista da colina e o verde das pequenas ruelas lá de cima. É quase vizinho do falecido Erik Satie, vejam só que maravilha! Depois dum "HLM" indiano, comemos num tailandês de impressionar lá em Belleville, na esquina de Monsieur Merlot. Quel plaisir, mes amis.
E é por isso que eu vos darei o prazer de regarder-lá dois dos responsáveis por esse acordo Capes-Cofecub, responsáveis igualmente pela orientação da minha tese de antropologia urbana, e responsáveis certamente ainda pelo parto de muitas percepções que atualmente povoam esse mundo de mobilidade e de échange culturel: Cefai e Mello, ontem, num jantar na casa da Patrícia onde estavam todos que eu conheço aqui em Paris: kétia, kátia, augustin, mello, cefai e michel misse.
Parfait! Merci beaucoup, mon angel de la guard!
lundi, mai 09, 2005
dimanche, mai 08, 2005
Non à cette constitution européenne!
Na feira de hoje, depois de ensacar uns queijos, umas lentilhas e umas linguiças, comecei a ensacar quase involuntariamente uns panfletos distribuidos por membros do Partido Comunista Francês e do ATTAC (Association pour la Taxation des Transactions pour l’Aide aux Citoyens), sobre o plebiscito de 29 de maio, quando a França vai dizer sim ou não à Constituição Européia.
Desde o meu primeiro contato mais, digamos, "estreito" com um parisiense, que foi aquele estabelecido com o taxista que me trouxe do Charles de Gaule até o XIVéme, chamou a minha atenção o Traitée de la Constituition que o motorista trazia ao lado do seu freio de mão. Estando ali depositado o exemplar da proposta, pude entender que entre un feu rouge e outro ele era lido por esse bravo citoyen francês. Pedi pra dar uma olhadinha e tive então a primeira evidência da politização desse povo das bandas de cá. Dois dias depois, numa agência de La Poste, fui informada pelo próprio sujeito do balcão que havia à minha disposição um exemplar da Constitution. Claro, peguei pra dar uma olhada e, como sempre, também enxergando nessa leitura uma porta para a minha socialização na língua e na cultura francesa. Afinal, por que o NÃO estampado em cada lixeira da cidade?
Vendo agora os folhetos que peguei hoje na feira, convencida pelo argumento intimador e malandro do pessoal do PCF - "vous êtes une citoyénne inteligente...", parecia até que eles já me conheciam... -, devo confessar que estou pensando seriamente em ir dia 15 ao Canal Saint-Martin para ver in loco esse ritual tipicamente francês de se associar e de se manifestar quanto a tudo em termos de política. Ver com meus próprios olhos e sentir com minha própria pele esse afã de dizer SIM ou NÃO, de se sentir engajado na vida pública, ou melhor, de se perceber visceralmente implicado nas decisões e no destino político disso que se chama nação.
Acho que vou me divertir à beça, e já estou preparando o meu saco de pipoca para ir assistir os argumentos de associações como:
Agir ensemble contre le Chômage!
Appel des 200 jeunes
ATTAC
CCC-OMC (Coordination pour le contrôle Citoyen de L'OMC)
CGT
Fondation Copernic
Marches Européennes
Coordination Féministe pour le NON
Panthères Roses (humm...)
SNUipp (Syndicat national unitaire des instituteurs professeurs des écoles et Pegc)
Union des Familles Laiques (!!!)
UNEF
Union Syndicale Solidaires
et d'autres
Um resumo do sentimento geral pode ser feito com a frase de passeata de todos os "companheiros" do mundo:
"Contre cette Europe-là, une autre Europe est possible".
Tout c'est vraiment possible! Eu penso que isto é o que traduz melhor a crença francesa, produtora daquela velha máxima da revolução de 1789. E tem outra (esta transmitida oralmente - e solenemente - há séculos pelas mulheres da minha família materna, cujas origens remontam à Galia): "Voiloir c'est pouvoir", já dizia, sentenciosa, a minha tatatatatáravó. Acho que deve ser isso mesmo. Não sei... vou ver dimanche, levando o meu saco de pipoca.
Desde o meu primeiro contato mais, digamos, "estreito" com um parisiense, que foi aquele estabelecido com o taxista que me trouxe do Charles de Gaule até o XIVéme, chamou a minha atenção o Traitée de la Constituition que o motorista trazia ao lado do seu freio de mão. Estando ali depositado o exemplar da proposta, pude entender que entre un feu rouge e outro ele era lido por esse bravo citoyen francês. Pedi pra dar uma olhadinha e tive então a primeira evidência da politização desse povo das bandas de cá. Dois dias depois, numa agência de La Poste, fui informada pelo próprio sujeito do balcão que havia à minha disposição um exemplar da Constitution. Claro, peguei pra dar uma olhada e, como sempre, também enxergando nessa leitura uma porta para a minha socialização na língua e na cultura francesa. Afinal, por que o NÃO estampado em cada lixeira da cidade?
Vendo agora os folhetos que peguei hoje na feira, convencida pelo argumento intimador e malandro do pessoal do PCF - "vous êtes une citoyénne inteligente...", parecia até que eles já me conheciam... -, devo confessar que estou pensando seriamente em ir dia 15 ao Canal Saint-Martin para ver in loco esse ritual tipicamente francês de se associar e de se manifestar quanto a tudo em termos de política. Ver com meus próprios olhos e sentir com minha própria pele esse afã de dizer SIM ou NÃO, de se sentir engajado na vida pública, ou melhor, de se perceber visceralmente implicado nas decisões e no destino político disso que se chama nação.
Acho que vou me divertir à beça, e já estou preparando o meu saco de pipoca para ir assistir os argumentos de associações como:
Agir ensemble contre le Chômage!
Appel des 200 jeunes
ATTAC
CCC-OMC (Coordination pour le contrôle Citoyen de L'OMC)
CGT
Fondation Copernic
Marches Européennes
Coordination Féministe pour le NON
Panthères Roses (humm...)
SNUipp (Syndicat national unitaire des instituteurs professeurs des écoles et Pegc)
Union des Familles Laiques (!!!)
UNEF
Union Syndicale Solidaires
et d'autres
Um resumo do sentimento geral pode ser feito com a frase de passeata de todos os "companheiros" do mundo:
"Contre cette Europe-là, une autre Europe est possible".
Tout c'est vraiment possible! Eu penso que isto é o que traduz melhor a crença francesa, produtora daquela velha máxima da revolução de 1789. E tem outra (esta transmitida oralmente - e solenemente - há séculos pelas mulheres da minha família materna, cujas origens remontam à Galia): "Voiloir c'est pouvoir", já dizia, sentenciosa, a minha tatatatatáravó. Acho que deve ser isso mesmo. Não sei... vou ver dimanche, levando o meu saco de pipoca.
samedi, mai 07, 2005
Moi, la flaneuse
É muito fácil viver aqui em Paris. Primeiro porque a cidade é um convite constante. Ainda mais na primavera, quando a vida explode por todos os lados. Segundo porque se não for a pé, vai-se de trem ou de metrô, e é praticamente impossível se perder aqui com essa logística tão sofisticada desenvolvida para o sistema de transportes. Sabe a história da flanerie? Ela também floresceu possibilitando outras tantas formas de locomoção para o flâneur moderno e na cidade em expansão. Paris é um tesão. E a prova disso é que ontem acordei, coloquei casaco e cachecol e saí para conhecer o Parc Montsouris, bem aqui em frente à Cité... e não consegui parar. Fui indo, num eterno gerúndio. C’est printemps, é primavera, e a vida anda explodindo a cada passo. Sem exageros. Acho mesmo que entendo porque aqui grama se chama pelouse: a natureza se manifesta tão exuberante nessa época...é de chorar. Muitas cores, pequenos insetos, muitas flores plantadas e voando, caindo das árvores e sendo levadas pela brisa leve e fria que não cessa. Elas e os pássaros são os que se responsabilizam pela vida que se suspende no ar. E há pássaros pra todo lado, como donos dos jardins. E há jardim o tempo todo. Até mesmo os prédios ficam barbudos na primavera. O meu vizinho está assim: cheio de trepadeiras gordas e bem verdes.
Vou dar um breve résumé do meu parcours d’hier (se você arrumar um mapa de Paris na Internet vai ter noção do quanto andei). Mas se você quiser pular todo esse parágrafo único, não se constranja, porque com ele vou aproveitar e guardar pra mim também algumas impressões. Aliás, tirei o dia de hoje só pra isso, porque metabolizo muito devagar as experiências.
Bem... sai do Montsouris pelo outro lado, na Avenue Rene Coty. (Atenção: imagine que tudo é arbotizado e que a arquitetura da cidade inteira é extremamente harmônica). Nela há umas escadas que levam até pequenas ruas, no alto. Subi em uma e saí na Saint-Yves, virando em seguida na pequeníssima rue des Artistes, com grandes portas coloridas e janelas generosas através das quais pude ver como vive bem alguém com a minha idade e estilo de vida. A rua é um silêncio. Eu gosto. O XIVéme tem tudo a ver comigo, é basicamente residencial, nem um pouco turístico, e tem essa vida diversa sugerida pela cité, onde vive gente de tudo que é canto do mundo. Voltei dali para a Av René Coty e continuei até a rue D’Alesia, um pouco maior e com um bom comércio. Ali decidi fazer um teste: entrei numa lavanderia para pedir informação sobre imobiliárias. A mulher me indicou com toda gentileza. Cheguei na imobiliária e a mulher também me atendeu numa ótima. Saí e fui até o florista comprar gerânios, e ele não só me atendeu bem como descobriu o meu sotaque brasileiro. Era português! Ricardo. Dali fui até a farmácia comprar soro pro nariz e, também lá, colhi mais um sorriso bacana. E ainda encontrei uma loja de bicicletas novas e usadas. Entre 20 e 30 euros uma boa bicicleta holandesa, com cestinha e marcha. Beleza: segunda-feira eu compro pra ir ver o Thévenot à tarde numa sala da École, junto com o Mello. Mas continuei até a Place Victor et Helene Basch, de onde entrei na Avenue du Maine. É exatamente nesse cruzamento que fica um restaurante chamado Le Dome, que me fez lembrar a Glória. Mas, enfim, não parece nada. Mais à frente entrei à direita, numa pracinha onde uns caras estavam jogando petanque (uma espécie de bocha ou malha). Em frente, a Mairie do XIVéme, quer dizer, a prefeitura do arrondissement. Saí pela lateral, em frente à École Erik Satie, e segui até a Rue Daguerre. Essa estreita e longa rua é cheia de hotéis pequenos e baratos (51E o casal é barato) e muitos cafés e alguns petits restaurantes paquistaneses e iranianos – e embora esse bairro não seja, nem de perto, como Belleville. Dali segui reto até chegar novamente à Av. du Maine e dar de cara no Comissariat de Police, onde eu fui me informar para tirar o “titre de séjour”, obrigatório pra quem vai morar aqui. É o anjo da guarda, literalmente, trabalhando até no momento da flanerie. Nessa avenue, no fim, a gente vê a tal Tour de Montparnasse, um prédio enorme, acho que o mais alto da Europa, que pra ser construído destruir um pedação do 14 arrondissement. Foi um crime, de fato, porque é um tiro preto pro alto, uma agressão. Um pouco mais à frente, atravessei à direita e entrei no Cimetière du Montparnasse. Logo que cheguei, encontrei o Tristan Tzara, e sobre sua tumba um livro sobre vampiros, da Anne Rice, uma escritora americana. Eu peguei aquele livro, achando que faria algo com ele. Quis, na verdade, criar um sentido pra esse pequeno furto, achando por alguns instantes que isso me levaria a algum lugar. Já cansada de carregar aquele livro, acabei depositando-o sobre a tumba de um tal Auguste Pinel, ex-combatente francês. Sei lá...alguém talvez continue a dar sentido a esse quê totalmente desprovido de. De repente, uns jovens fotografando uma tumba. Era a de Baudelaire. Sobre ela, uma garrafa de absinto e dois livros de autores desconhecidos. Quiçá Baudelaire não pudesse dar uma mãozinha? A tumba era um verdadeiro despacho. E eu pensei seriamente em pegar aquela garrafa. Mas prossegui peregrinando, em plena primavera, pelo lugar dos mortos. Os corvos é que tomam conta daquele ambiente. Eles cruzavam e minha frente como pombos, e eu não sei realmente o que atrai essas aves para aquele território. Eles ficam por ali, pretos, enormes, velando. De vez em quando soltam um grito. É sinistro. Queria achar a tumba do Durkheim pra me sentir segura. Ele estava em algum ponto da área dos judeus. Há ali duas áreas para judeus, mas como os túmulos são quase todos semelhantes, acabei não encontrando Durkheim, mas perto dali, a Simone de Beauvoir e o Sartre. Sentei perto deles, na tumba vizinha, para olhar o mapa mas um agent me pediu, muito educado, para me sentar num banco. Já estava de bom tamanho também esse passeio fúnebre.
Saí dali e entrei no Boulevard Raspail, uma via importante aqui da cidade, igualmente bonita, cheia de bancos para uma paradinha, livrarias especializadas (aliás é uma redundância enfatizar a existência de livrarias aqui ou acolá, porque elas estão por todos os lados) e, mais à frente, os prédios da Sorbonne, da École des Hautes Études, da Maison de Science de L’Homme. Ali encontrei a Aliança Francesa e entrei pra saber de algum curso rápido pra quem vient d’arriver. Acho que vou fazer um de duas semanas pra afiar a língua (157euros! Pra cá, barato.).
Continuei descendo e entrei na rue Vauginard, passei em frente ao prédio do Institut Catholique de Paris, na rue Dassas, e cai na grande rue de Rennes. Ali senti que havia chegado na região que se chama “badalada”, com umas pessoas bem vestidas, cheias de caras e bocas, cafés branchés (como se diz), lojas de tapetes caríssimos (3500euros), móveis, roupas. Desci por ela e entrei à esquerda numa rua também movimentada, mas menor e bem interessante, chamada rue du Vieux Colombier. Ali tem um teatro de mesmo nome, muito antigo, e talvez fora do circuito turístico. De lá avistei uma torre e me guiei por ela. Antes, passei no Carrefour de la Croixrouge (cruzamente da cruz vermelha), que me marcou porque ali tem uma escultura imensa do César (que também está em Montparnasse), de um centauro de ferro, feito com peças forjadas das mais diversas utilidades, mas que viraram sacos, músculos, pênis, dentes, línguas. E tudo preto, sobre um pedestal. Fantástico! Impactante. Talvez pelo erotismo e pelo porte do bicho.
Mas aí cheguei na Place de Saint Sulpice, onde estava a tal torre, e vi que esta era a da igreja de Saint Sulpice. Entrei, sentei e comecei a apreciar a grandiosidade, enquanto descansava um pouco. Parar depois de um longa caminhada chega a dar uma certa vertigem, uma “onda”, certamente por causa da endorfina que o corpo libera. E parando eu pude me dar conta de coisas que o caminhar não permite por causa do movimento, des choses qui passent - et se passent. Parada ali sai da minha ilha, embora ainda nela, e ouvi e respirei consciente disso: não era o meu mundo, mas, por que não, um mundo amigo? Fui ler sobre a Eglise Saint Súplice e descobri que a sua construção foi aprovada no dia do meu aniversário: 15 de agosto, só que de 1645, para ser a paróquia de Luxembourg. “Legal”. E na saída ainda vi em tamanho natural a reprodução do Santo Sudário, com uma breve explicação. O que impressionou mesmo foi ouvir os comentários dos franceses que paravam ali: “Incroyable”. Me deu uma sensação de que era uma informação nova. Talvez não. Talvez sim. Sei lá.
Saí pela rue de Seine na intenção de desaguar no rio. Andei mais um pouquinho e cheguei no Boulevard Saint Germain, onde passei em frente ao Marche Saint Germain de Pres. Fraco. Superficial, “vide”, como pensei nessa língua: vazio de alma. Tanto que em frente havia uma boulangerie (uma padaria) e entrei para comprar uma baguette. Estava DURA! Vi então que ali, no 6éme, estava em plena região das aparências. Muito rímel e pó de arroz, muitos perfumes e muito burburinho, o que nos coloca em pleno risco de levar gato por lebre.
Logo perto dali, porém, encontrei um lugar incrível. Realmente a cidade nos apresenta dessas surpresas inesperadas, para ser bem enfática. Sem contar que a cada cinco minutos de caminhada há uma estação de metro, um banco e um jardim, quer dizer, a cada cinco minutos a gente pode sentar, respirar ou simplesmente partir pra outro universo, dentro da própria Paris. Mas a surpresa era uma ruela bem pequena, que me fez abrir o mapa. Nele ela estava marcada com uma cor diferente, e eu ainda não sei porque. Mas esse pequeno miolo, essa ilhota, é composta por três ruelas: a Rue de l’Echaude, rue de L’Abbaye (abadia, como sugere o nome) e la Rue de Furstenberg. Em cada muro dali e mesmo do resto por onde andei, existem sinalizações, placas em pedra, indicando que “aqui morreu, assassinado pelos alemães, fulano de tal”. Entendo ainda mais o choro do Julien. Lá em Belleville eu vi, de madrugada, uma École Maternelle onde há também uma placa informando que ali, entre entre 42 e 44, as crianças nascidas judias foram raptadas pelos alemães e levadas para os “campos da morte”. Eu fotografei essa escola. Mas nesse miolo, além dessa memória mantida viva, há também dezenas de micro-galerias de arte, uma ao lado da outra, e livrarias especializadas em raridades caríssimas. A coleção dos livros com as cartas dos irmãos Grimm estava custando 1500euros. E essas três ruas praticamente não comportam a passagem de carros. Eles costumam passar pelas ruas maiores ao redor. É um miolo que tem ecos, você pode imaginar? E tem ali ainda o Musée Delacroix, mas tão discreto que não consegui sequer encontrá-lo. Falta um elemento importantíssimo pra você compor o seu quadro: os prédios aqui, esses prédios haussmanianos, como se menciona remetendo à época da reforma urbana, tem todos eles o que se chama de “cour”, quer dizer, atrás das grandes e pesadas portas de madeira ou de ferro e vidro que protegem a entrada, há uma passagem e logo em seguida uma espécie de praça privada, que são as “cours”. Quase todos os prédios aqui em Paris têm cour. A parte de trás deles é bastante acolhedora e agradável. Eu vi na casa do Augustin, mas depois - ou quiçá un jour - chego lá.
Bom, continuei ali, vendo o que esses franceses fazem de arte, vi coisas mesmo da “taille” de um Picasso, outras mais originais, mas todas muito boas. Isso é bem legal: está tudo na rua, as expressões todas estão expostas nas vitrines, ali ou em Belleville, no 19 e 20éme, e quem quiser entrar é bem vindo. Desde que, é claro, se chegue bem. Pensando nisso, ouvi um assobio. Olhei pra cima e me dei conta de que estava sendo paquerada.
Os franceses são muito paqueradores. Qualquer lugar é lugar pra um galanteio. Isso é lindo! Eu gosto de ver as pessoas namorando aqui. Tem um ar infantil, doce, delicado, brincalhão. Tem também a curtição da cidade, das gramas, dos cafés, da beira do Rio. E tem ainda a intimidade da casa. É uma graça.
Dali alcancei a rue Jacob e virei à direita novamente na rue de Seine. Passei por uma pequena place Pierne, e uns gatões de meia idade perguntaram se eu falava francês. Continuei andando. Perguntaram então se eu era espanhola. Aí mesmo é que continuei andando, porque me lembrei do Porto. Essa abordagem foi digna de observação. Quando se caminha, vai se indo num degradé pela cidade, pelos lugares, pelas horas, e vai se vendo, vivendo, o que realmente quer dizer essa tal de ecologia urbana e “regiões morais”, como diria o velho sociólogo de Chicago, o grande Ezra Park. A partir de um determinado momento, passei a ser abordada. O passeio começou a sofrer pequenas intervenções, porém facilmente resolvidas com a ostentação de um certo ar distraído, de quem não percebe nada. O importante nessas horas é não se deixar contactar pelo olhar. Não entrar no jogo. O olhar é um fio condutor.
Mas, on y continue! Passei pela pequena place Pierne, passei pelos gatões abordadores, e também por baixo do arco de uma passagem por sobre um bonito prédio. Esse verdadeiro portal me levou à uma esplanada esplendorosa, que é a Place de L’Institut de France. Ou seja, esse prédio bonito, acastanhado, de pedra, como todos, mas suntuoso, é o prédio da Academia Francesa de Letras. O reino desses caras que a gente gosta de ler ou conhece no Brasil: Levi-Strauss, Tocqueville, Anatole France, Bachelard, Berlioz, Pasteur. Estava, enfim, entre a Quai Malaquias e a Quai de Conti. Quai = Cais. E em frente, a Pont des Arts, que atravessei olhando toda aquela gente sentada no chão, pegando sol, bebendo vinho, cerveja, comendo, verdadeiros piqueninques sobre ou à margem do Sena. Cheguei em plena primavera, e pela vida intensa nas ruas e nos corações – pois que me parecem todos muito abertos –, eu posso imaginar o sofrimento do inverno.
Voltemos, no entanto, à marcha da Rive Gauche à Rive Droit! É que fiquei vendo aquela gente toda ali, cada um na sua, e me deu uma alegria...é o encanto da paixão. Saí da ponte e já havia mais um outro sujeito querendo fazer graça para chamar a minha atenção. Acontece que aprendi que local turístico não é dos melhores pra se dar trela. Existem neles umas combinações muito características, algumas armadilhas. É notório. E só fui aprender em Portugal, mesmo tendo trabalhado tanto tempo atentando para essas áreas, que em muitos lugares se caracterizam como áreas de prostituição, que muitas vezes denotam o espaço do turista também. Má quê! Me parece questão de experiência, do bom e velho – mas não tardio – abrir de olhos. Tem jeito não: podemos ser de um lugar sem necessariamente sermos dele, e podemos não se jamais nem mesmo do lugar do qual achamos que somos. C’est drôle. Tal sintonia fina, tal espírito, nos põe e tira dos riscos como se fôssemos marionetes de nós mesmos.
Bom, depois da ponte, ou melhor, do outro lado, estava um pequenos “jardin”, este tipicamente francês, ou ao menos daqueles jardins da corte de versailles: certinhos, domesticados, desenhados para o deleite e frivolidade de uma certa aristocracia. O nome do tal Jardin era Jardin de L’Infante, e, ainda distraída por ele e pela suntuosidade do bâtiment (do prédio), quase não vi que estava prestes a atravessar um grande arco para chegar, finalmente, na grandiosa Cour Carré, na traseira do Louvre. Só ali me dei conta de onde estava. Ou seja, se o Louvre fosse uma cobra, me picava. Quando saí de casa ontem não pensei em desembocar em nenhum lugar em especial. Só sabia que ia caminhar pelo Parc Montsouris. Mas, bom... a vida é cheia de surpresas mesmo. Como não podia deixar de ser, um violoncelo alcançou os meus ouvidos. Nos locais turísticos esses sons nos alcançam logo. Era um jovem rapaz em busca de alguns trocados. Mas não só isso: ele contribuía para a alma do local com a sua música e com um dos olhos que de vez em quando abria, apesar da face compenetrada, para ver quantos estavam a lhe observar e poder calcular o lucro entre um golpe de arco e outro. O menino era bom.
Passei dali pra Cour de Napoleon, onde está a pirâmide do Miterrand, quer dizer, a pirâmide do Louvre. “Bom lugar pra sentar e comer, finalmente, a minha baguette”, pensei. Bom mesmo porque eu estava faminta. E havia um sol. Comecei a olhar, sem conseguir pensar direito – o que deixei pra fazer agora: os turistas parecem formigas. Eles se movimentam excessivamente. E riem. Quando não estão rindo, estão mortos. Não estão nem cansados. Estão mortos mesmo. Talvez porque o turista opte por fazer fora de casa tudo aquilo que ele jamais faria, que não tem o menor interesse em fazer, e nem mesmo saberia por onde começar a fazer, ainda que estivesse no seu próprio habitat. Mas fora de casa ele se engaja nessa aventura, e aí você pode imaginar o dispêndio de energia. Outro dia caí sem querer na Ile de la Cite, ali onde está a Notre Dame, e também fiquei cansada só de ver. Entrei, claro, até porque tinha um corcunda cego na porta pedindo esmolas e eu fotografei ele. Parecia um sinal. Um sinal do quanto tudo isso é fantasioso. Enquanto eu estava sentada ali mordendo a minha baguette à Lyonnais (quer dizer, um sanduíche de salame com picles), passou de novo o cara das gracinhas. Imediatamente mirei numa belíssima escultura, no ponto mais alto que pude alcançar, e o cara esmoreceu e foi-se embora. Não pretendo voltar por aquela área nos próximos dois meses. Daí a idéia de aproveitar que estava ali e emburacar na reta que terminava, lá bem na ponta, com o Arco do Triunfo.
Já em frente ao Louvre, entre ele e o Jardin des Tuileries, il y a le Jardin du Carrossel, com um pequeno Arco também construído por Napoleão para os seus vitoriosos soldados. (O Julien disse que acha “marrant” essa coisa do heroísmo com o qual o francês estereotipado se traveste). Mas lá fui eu: cruzei o primeiro jardin, o segundo, até chegar na Avenue Champs Elysées. Nota rápida: o jardin des Tuileries também estava lotado de gente. E nele tem muitas cadeiras de ferro, bem confortáveis, que a gente pode colocar onde quiser pra dar uma relaxada. Normalmente as pessoas colocam perto das fontes e ficam ali, no sol e pegando uns respingos. Aproveitei e fiz o mesmo para poder abrir o mapa de me situar. Aí sim segui em frente. Quase no final das Tuileries eu comecei a ouvir, vindo lá de trás, um grupo de adolescentes, por sinal muito interessante, cantando: “Oh, Champs Elysées! On va danser, on va chanter, on va....Oh! Champs Elysées ! ». E eles vieram se aproximando nesse ritmo compassado pela cantoria, os meninos na frente e as meninas atrás, no coro, como um rolo compressor ironizando os turistas. Genial! Embora isso tenha feito eu me flagrar ali, fez também distinguir em quais condições.
A Champs elysées é o endereço da mais alta burguesia de Paris. Você precisava ver os tipos. Tudo bem que tem ali o Grand Palais, onde está tendo a exposição Brésil Indien, tem lá prédios lindos, mas é assim por todos os lados, então não faz diferença. Foi preciso ver o grande bunner da exposição encimando o suntuoso Grand Palais pra ter idéia do meu estrangeirismo. Era eu, o azul imenso anunciando os índios da Amazônia, e a França. Ali eu era nada. Me senti pequena, ainda não sei bem te dizer por que, mas um pouco diminuída, vendo um símbolo que me faz sentir brasileira (um cocar!!) exposto ali explorado pelo seu exotismo. Me senti uma índia, dá pra imaginar? Mas uma índia excluída da festa, carente do tal exotismo cultuado e, por que não dizer?, cultivado! Uma “exonêmica”, eu. Pelo menos ali, aos pés do Grand Palais.
Fora dali não. Fora dali me sinto mesmo em casa, dando conta da rotina classe média de qualquer lugar do mundo. O que muda são os produtos e os preços. Tenho me sentido muito bem aqui, menos estrangeira, por incrível que pareça, do que me senti em Portugal. Talvez porque tenha vindo pra morar, ao invés de ir entrando e saindo com uma velocidade alucinante da vida das pessoas e, por sua vez, das cidades também. Nesse início eu vejo que basta o sentimento pra dar o tom do como vamos apreender um novo mundo. Todo o resto se desenrola a partir desse diapasão. E eu joguei a toalha. Deixei os Arcos do Triunfo pros franceses ficarem circundando feito alucinados em suas motonetas, fiats e fords. Me lancei no buraco do metro Franklin Roosevelt, que pelo nome parecia significar algo, mais precisamente um péssimo sinal. Devia voltar correndo para o outro lado da cidade.
No “buraco” parei pra ver o mapa e descobrir a conexão que era preciso fazer: Strasbourg-St. Denis, depois Chatelêt (um dos grandes entroncamentos de trem e metrô) e de lá pegar o RER B (RER é o trem, B é a direção da minha casa) para a Porte de Gentilly, que passa pela Cité. Parece difícil, não sei que imagem fica na cabeça de vocês, mas não é não. Nem demorado. É um pulo. Eu agora estou me entendendo melhor com a estação de Chatelêt. Ela é cheia de corredores, entradas, escadas de alvenaria e rolantes, esteiras rolantes, gente surgindo por todos os lados. Mas não existem grandes espaços nela. São corredores e subidas e descidas, pois dali saem comboios pra tudo que é canto. E é um calor infernal. Eu acho que essa fama do francês fedorento vem daí: do lado de fora é frio, e dentro de qualquer lugar existe chauffage, o aquecimento, que nos obriga a um breve strip-tease. E é esse tira e põe o tempo todo, um suadouro louco, e depois um frio de avermelhar nariz.
Já no RER, um sujeito batia no vidro da janela e cantava alto, excitado. Atrás dele, uma mulher que o olhava de maneira fulminante. Mezmerizei-me por aquele olhar, você compreende? Senti que dali sairia algo. Não demorou e ela soltou um gutural “S’il vous plaît”! E depois outro: “S’il vous plaît, monsieur!”. O cara afundou o pescoço no ombro. Ou, pra dizer em francês: “il a plongé son cou dans ses époules ». Gostei dessa atitude, dessa inquietude, dessa impaciência, dessa demonstração pública de irritação. Ça me fait plaisir. Porque sou meio assim, mas até então exercitei demasiadamente a contenção desse tipo de sentimento que trago em mim. Quase chegando aqui, já na estação Cite, vi um casal se amassando no canto da roleta, rostos quase inexpressivos, como nos dramas franceses – ou com a densidade muda do Último Poema do Bandeira. Dois segundos depois eles estavam atrás de mim, porque deixei cair no chão, ao sacar a carte orange, o cartão que me serve de chave de casa. C’est tout.
Vou dar um breve résumé do meu parcours d’hier (se você arrumar um mapa de Paris na Internet vai ter noção do quanto andei). Mas se você quiser pular todo esse parágrafo único, não se constranja, porque com ele vou aproveitar e guardar pra mim também algumas impressões. Aliás, tirei o dia de hoje só pra isso, porque metabolizo muito devagar as experiências.
Bem... sai do Montsouris pelo outro lado, na Avenue Rene Coty. (Atenção: imagine que tudo é arbotizado e que a arquitetura da cidade inteira é extremamente harmônica). Nela há umas escadas que levam até pequenas ruas, no alto. Subi em uma e saí na Saint-Yves, virando em seguida na pequeníssima rue des Artistes, com grandes portas coloridas e janelas generosas através das quais pude ver como vive bem alguém com a minha idade e estilo de vida. A rua é um silêncio. Eu gosto. O XIVéme tem tudo a ver comigo, é basicamente residencial, nem um pouco turístico, e tem essa vida diversa sugerida pela cité, onde vive gente de tudo que é canto do mundo. Voltei dali para a Av René Coty e continuei até a rue D’Alesia, um pouco maior e com um bom comércio. Ali decidi fazer um teste: entrei numa lavanderia para pedir informação sobre imobiliárias. A mulher me indicou com toda gentileza. Cheguei na imobiliária e a mulher também me atendeu numa ótima. Saí e fui até o florista comprar gerânios, e ele não só me atendeu bem como descobriu o meu sotaque brasileiro. Era português! Ricardo. Dali fui até a farmácia comprar soro pro nariz e, também lá, colhi mais um sorriso bacana. E ainda encontrei uma loja de bicicletas novas e usadas. Entre 20 e 30 euros uma boa bicicleta holandesa, com cestinha e marcha. Beleza: segunda-feira eu compro pra ir ver o Thévenot à tarde numa sala da École, junto com o Mello. Mas continuei até a Place Victor et Helene Basch, de onde entrei na Avenue du Maine. É exatamente nesse cruzamento que fica um restaurante chamado Le Dome, que me fez lembrar a Glória. Mas, enfim, não parece nada. Mais à frente entrei à direita, numa pracinha onde uns caras estavam jogando petanque (uma espécie de bocha ou malha). Em frente, a Mairie do XIVéme, quer dizer, a prefeitura do arrondissement. Saí pela lateral, em frente à École Erik Satie, e segui até a Rue Daguerre. Essa estreita e longa rua é cheia de hotéis pequenos e baratos (51E o casal é barato) e muitos cafés e alguns petits restaurantes paquistaneses e iranianos – e embora esse bairro não seja, nem de perto, como Belleville. Dali segui reto até chegar novamente à Av. du Maine e dar de cara no Comissariat de Police, onde eu fui me informar para tirar o “titre de séjour”, obrigatório pra quem vai morar aqui. É o anjo da guarda, literalmente, trabalhando até no momento da flanerie. Nessa avenue, no fim, a gente vê a tal Tour de Montparnasse, um prédio enorme, acho que o mais alto da Europa, que pra ser construído destruir um pedação do 14 arrondissement. Foi um crime, de fato, porque é um tiro preto pro alto, uma agressão. Um pouco mais à frente, atravessei à direita e entrei no Cimetière du Montparnasse. Logo que cheguei, encontrei o Tristan Tzara, e sobre sua tumba um livro sobre vampiros, da Anne Rice, uma escritora americana. Eu peguei aquele livro, achando que faria algo com ele. Quis, na verdade, criar um sentido pra esse pequeno furto, achando por alguns instantes que isso me levaria a algum lugar. Já cansada de carregar aquele livro, acabei depositando-o sobre a tumba de um tal Auguste Pinel, ex-combatente francês. Sei lá...alguém talvez continue a dar sentido a esse quê totalmente desprovido de. De repente, uns jovens fotografando uma tumba. Era a de Baudelaire. Sobre ela, uma garrafa de absinto e dois livros de autores desconhecidos. Quiçá Baudelaire não pudesse dar uma mãozinha? A tumba era um verdadeiro despacho. E eu pensei seriamente em pegar aquela garrafa. Mas prossegui peregrinando, em plena primavera, pelo lugar dos mortos. Os corvos é que tomam conta daquele ambiente. Eles cruzavam e minha frente como pombos, e eu não sei realmente o que atrai essas aves para aquele território. Eles ficam por ali, pretos, enormes, velando. De vez em quando soltam um grito. É sinistro. Queria achar a tumba do Durkheim pra me sentir segura. Ele estava em algum ponto da área dos judeus. Há ali duas áreas para judeus, mas como os túmulos são quase todos semelhantes, acabei não encontrando Durkheim, mas perto dali, a Simone de Beauvoir e o Sartre. Sentei perto deles, na tumba vizinha, para olhar o mapa mas um agent me pediu, muito educado, para me sentar num banco. Já estava de bom tamanho também esse passeio fúnebre.
Saí dali e entrei no Boulevard Raspail, uma via importante aqui da cidade, igualmente bonita, cheia de bancos para uma paradinha, livrarias especializadas (aliás é uma redundância enfatizar a existência de livrarias aqui ou acolá, porque elas estão por todos os lados) e, mais à frente, os prédios da Sorbonne, da École des Hautes Études, da Maison de Science de L’Homme. Ali encontrei a Aliança Francesa e entrei pra saber de algum curso rápido pra quem vient d’arriver. Acho que vou fazer um de duas semanas pra afiar a língua (157euros! Pra cá, barato.).
Continuei descendo e entrei na rue Vauginard, passei em frente ao prédio do Institut Catholique de Paris, na rue Dassas, e cai na grande rue de Rennes. Ali senti que havia chegado na região que se chama “badalada”, com umas pessoas bem vestidas, cheias de caras e bocas, cafés branchés (como se diz), lojas de tapetes caríssimos (3500euros), móveis, roupas. Desci por ela e entrei à esquerda numa rua também movimentada, mas menor e bem interessante, chamada rue du Vieux Colombier. Ali tem um teatro de mesmo nome, muito antigo, e talvez fora do circuito turístico. De lá avistei uma torre e me guiei por ela. Antes, passei no Carrefour de la Croixrouge (cruzamente da cruz vermelha), que me marcou porque ali tem uma escultura imensa do César (que também está em Montparnasse), de um centauro de ferro, feito com peças forjadas das mais diversas utilidades, mas que viraram sacos, músculos, pênis, dentes, línguas. E tudo preto, sobre um pedestal. Fantástico! Impactante. Talvez pelo erotismo e pelo porte do bicho.
Mas aí cheguei na Place de Saint Sulpice, onde estava a tal torre, e vi que esta era a da igreja de Saint Sulpice. Entrei, sentei e comecei a apreciar a grandiosidade, enquanto descansava um pouco. Parar depois de um longa caminhada chega a dar uma certa vertigem, uma “onda”, certamente por causa da endorfina que o corpo libera. E parando eu pude me dar conta de coisas que o caminhar não permite por causa do movimento, des choses qui passent - et se passent. Parada ali sai da minha ilha, embora ainda nela, e ouvi e respirei consciente disso: não era o meu mundo, mas, por que não, um mundo amigo? Fui ler sobre a Eglise Saint Súplice e descobri que a sua construção foi aprovada no dia do meu aniversário: 15 de agosto, só que de 1645, para ser a paróquia de Luxembourg. “Legal”. E na saída ainda vi em tamanho natural a reprodução do Santo Sudário, com uma breve explicação. O que impressionou mesmo foi ouvir os comentários dos franceses que paravam ali: “Incroyable”. Me deu uma sensação de que era uma informação nova. Talvez não. Talvez sim. Sei lá.
Saí pela rue de Seine na intenção de desaguar no rio. Andei mais um pouquinho e cheguei no Boulevard Saint Germain, onde passei em frente ao Marche Saint Germain de Pres. Fraco. Superficial, “vide”, como pensei nessa língua: vazio de alma. Tanto que em frente havia uma boulangerie (uma padaria) e entrei para comprar uma baguette. Estava DURA! Vi então que ali, no 6éme, estava em plena região das aparências. Muito rímel e pó de arroz, muitos perfumes e muito burburinho, o que nos coloca em pleno risco de levar gato por lebre.
Logo perto dali, porém, encontrei um lugar incrível. Realmente a cidade nos apresenta dessas surpresas inesperadas, para ser bem enfática. Sem contar que a cada cinco minutos de caminhada há uma estação de metro, um banco e um jardim, quer dizer, a cada cinco minutos a gente pode sentar, respirar ou simplesmente partir pra outro universo, dentro da própria Paris. Mas a surpresa era uma ruela bem pequena, que me fez abrir o mapa. Nele ela estava marcada com uma cor diferente, e eu ainda não sei porque. Mas esse pequeno miolo, essa ilhota, é composta por três ruelas: a Rue de l’Echaude, rue de L’Abbaye (abadia, como sugere o nome) e la Rue de Furstenberg. Em cada muro dali e mesmo do resto por onde andei, existem sinalizações, placas em pedra, indicando que “aqui morreu, assassinado pelos alemães, fulano de tal”. Entendo ainda mais o choro do Julien. Lá em Belleville eu vi, de madrugada, uma École Maternelle onde há também uma placa informando que ali, entre entre 42 e 44, as crianças nascidas judias foram raptadas pelos alemães e levadas para os “campos da morte”. Eu fotografei essa escola. Mas nesse miolo, além dessa memória mantida viva, há também dezenas de micro-galerias de arte, uma ao lado da outra, e livrarias especializadas em raridades caríssimas. A coleção dos livros com as cartas dos irmãos Grimm estava custando 1500euros. E essas três ruas praticamente não comportam a passagem de carros. Eles costumam passar pelas ruas maiores ao redor. É um miolo que tem ecos, você pode imaginar? E tem ali ainda o Musée Delacroix, mas tão discreto que não consegui sequer encontrá-lo. Falta um elemento importantíssimo pra você compor o seu quadro: os prédios aqui, esses prédios haussmanianos, como se menciona remetendo à época da reforma urbana, tem todos eles o que se chama de “cour”, quer dizer, atrás das grandes e pesadas portas de madeira ou de ferro e vidro que protegem a entrada, há uma passagem e logo em seguida uma espécie de praça privada, que são as “cours”. Quase todos os prédios aqui em Paris têm cour. A parte de trás deles é bastante acolhedora e agradável. Eu vi na casa do Augustin, mas depois - ou quiçá un jour - chego lá.
Bom, continuei ali, vendo o que esses franceses fazem de arte, vi coisas mesmo da “taille” de um Picasso, outras mais originais, mas todas muito boas. Isso é bem legal: está tudo na rua, as expressões todas estão expostas nas vitrines, ali ou em Belleville, no 19 e 20éme, e quem quiser entrar é bem vindo. Desde que, é claro, se chegue bem. Pensando nisso, ouvi um assobio. Olhei pra cima e me dei conta de que estava sendo paquerada.
Os franceses são muito paqueradores. Qualquer lugar é lugar pra um galanteio. Isso é lindo! Eu gosto de ver as pessoas namorando aqui. Tem um ar infantil, doce, delicado, brincalhão. Tem também a curtição da cidade, das gramas, dos cafés, da beira do Rio. E tem ainda a intimidade da casa. É uma graça.
Dali alcancei a rue Jacob e virei à direita novamente na rue de Seine. Passei por uma pequena place Pierne, e uns gatões de meia idade perguntaram se eu falava francês. Continuei andando. Perguntaram então se eu era espanhola. Aí mesmo é que continuei andando, porque me lembrei do Porto. Essa abordagem foi digna de observação. Quando se caminha, vai se indo num degradé pela cidade, pelos lugares, pelas horas, e vai se vendo, vivendo, o que realmente quer dizer essa tal de ecologia urbana e “regiões morais”, como diria o velho sociólogo de Chicago, o grande Ezra Park. A partir de um determinado momento, passei a ser abordada. O passeio começou a sofrer pequenas intervenções, porém facilmente resolvidas com a ostentação de um certo ar distraído, de quem não percebe nada. O importante nessas horas é não se deixar contactar pelo olhar. Não entrar no jogo. O olhar é um fio condutor.
Mas, on y continue! Passei pela pequena place Pierne, passei pelos gatões abordadores, e também por baixo do arco de uma passagem por sobre um bonito prédio. Esse verdadeiro portal me levou à uma esplanada esplendorosa, que é a Place de L’Institut de France. Ou seja, esse prédio bonito, acastanhado, de pedra, como todos, mas suntuoso, é o prédio da Academia Francesa de Letras. O reino desses caras que a gente gosta de ler ou conhece no Brasil: Levi-Strauss, Tocqueville, Anatole France, Bachelard, Berlioz, Pasteur. Estava, enfim, entre a Quai Malaquias e a Quai de Conti. Quai = Cais. E em frente, a Pont des Arts, que atravessei olhando toda aquela gente sentada no chão, pegando sol, bebendo vinho, cerveja, comendo, verdadeiros piqueninques sobre ou à margem do Sena. Cheguei em plena primavera, e pela vida intensa nas ruas e nos corações – pois que me parecem todos muito abertos –, eu posso imaginar o sofrimento do inverno.
Voltemos, no entanto, à marcha da Rive Gauche à Rive Droit! É que fiquei vendo aquela gente toda ali, cada um na sua, e me deu uma alegria...é o encanto da paixão. Saí da ponte e já havia mais um outro sujeito querendo fazer graça para chamar a minha atenção. Acontece que aprendi que local turístico não é dos melhores pra se dar trela. Existem neles umas combinações muito características, algumas armadilhas. É notório. E só fui aprender em Portugal, mesmo tendo trabalhado tanto tempo atentando para essas áreas, que em muitos lugares se caracterizam como áreas de prostituição, que muitas vezes denotam o espaço do turista também. Má quê! Me parece questão de experiência, do bom e velho – mas não tardio – abrir de olhos. Tem jeito não: podemos ser de um lugar sem necessariamente sermos dele, e podemos não se jamais nem mesmo do lugar do qual achamos que somos. C’est drôle. Tal sintonia fina, tal espírito, nos põe e tira dos riscos como se fôssemos marionetes de nós mesmos.
Bom, depois da ponte, ou melhor, do outro lado, estava um pequenos “jardin”, este tipicamente francês, ou ao menos daqueles jardins da corte de versailles: certinhos, domesticados, desenhados para o deleite e frivolidade de uma certa aristocracia. O nome do tal Jardin era Jardin de L’Infante, e, ainda distraída por ele e pela suntuosidade do bâtiment (do prédio), quase não vi que estava prestes a atravessar um grande arco para chegar, finalmente, na grandiosa Cour Carré, na traseira do Louvre. Só ali me dei conta de onde estava. Ou seja, se o Louvre fosse uma cobra, me picava. Quando saí de casa ontem não pensei em desembocar em nenhum lugar em especial. Só sabia que ia caminhar pelo Parc Montsouris. Mas, bom... a vida é cheia de surpresas mesmo. Como não podia deixar de ser, um violoncelo alcançou os meus ouvidos. Nos locais turísticos esses sons nos alcançam logo. Era um jovem rapaz em busca de alguns trocados. Mas não só isso: ele contribuía para a alma do local com a sua música e com um dos olhos que de vez em quando abria, apesar da face compenetrada, para ver quantos estavam a lhe observar e poder calcular o lucro entre um golpe de arco e outro. O menino era bom.
Passei dali pra Cour de Napoleon, onde está a pirâmide do Miterrand, quer dizer, a pirâmide do Louvre. “Bom lugar pra sentar e comer, finalmente, a minha baguette”, pensei. Bom mesmo porque eu estava faminta. E havia um sol. Comecei a olhar, sem conseguir pensar direito – o que deixei pra fazer agora: os turistas parecem formigas. Eles se movimentam excessivamente. E riem. Quando não estão rindo, estão mortos. Não estão nem cansados. Estão mortos mesmo. Talvez porque o turista opte por fazer fora de casa tudo aquilo que ele jamais faria, que não tem o menor interesse em fazer, e nem mesmo saberia por onde começar a fazer, ainda que estivesse no seu próprio habitat. Mas fora de casa ele se engaja nessa aventura, e aí você pode imaginar o dispêndio de energia. Outro dia caí sem querer na Ile de la Cite, ali onde está a Notre Dame, e também fiquei cansada só de ver. Entrei, claro, até porque tinha um corcunda cego na porta pedindo esmolas e eu fotografei ele. Parecia um sinal. Um sinal do quanto tudo isso é fantasioso. Enquanto eu estava sentada ali mordendo a minha baguette à Lyonnais (quer dizer, um sanduíche de salame com picles), passou de novo o cara das gracinhas. Imediatamente mirei numa belíssima escultura, no ponto mais alto que pude alcançar, e o cara esmoreceu e foi-se embora. Não pretendo voltar por aquela área nos próximos dois meses. Daí a idéia de aproveitar que estava ali e emburacar na reta que terminava, lá bem na ponta, com o Arco do Triunfo.
Já em frente ao Louvre, entre ele e o Jardin des Tuileries, il y a le Jardin du Carrossel, com um pequeno Arco também construído por Napoleão para os seus vitoriosos soldados. (O Julien disse que acha “marrant” essa coisa do heroísmo com o qual o francês estereotipado se traveste). Mas lá fui eu: cruzei o primeiro jardin, o segundo, até chegar na Avenue Champs Elysées. Nota rápida: o jardin des Tuileries também estava lotado de gente. E nele tem muitas cadeiras de ferro, bem confortáveis, que a gente pode colocar onde quiser pra dar uma relaxada. Normalmente as pessoas colocam perto das fontes e ficam ali, no sol e pegando uns respingos. Aproveitei e fiz o mesmo para poder abrir o mapa de me situar. Aí sim segui em frente. Quase no final das Tuileries eu comecei a ouvir, vindo lá de trás, um grupo de adolescentes, por sinal muito interessante, cantando: “Oh, Champs Elysées! On va danser, on va chanter, on va....Oh! Champs Elysées ! ». E eles vieram se aproximando nesse ritmo compassado pela cantoria, os meninos na frente e as meninas atrás, no coro, como um rolo compressor ironizando os turistas. Genial! Embora isso tenha feito eu me flagrar ali, fez também distinguir em quais condições.
A Champs elysées é o endereço da mais alta burguesia de Paris. Você precisava ver os tipos. Tudo bem que tem ali o Grand Palais, onde está tendo a exposição Brésil Indien, tem lá prédios lindos, mas é assim por todos os lados, então não faz diferença. Foi preciso ver o grande bunner da exposição encimando o suntuoso Grand Palais pra ter idéia do meu estrangeirismo. Era eu, o azul imenso anunciando os índios da Amazônia, e a França. Ali eu era nada. Me senti pequena, ainda não sei bem te dizer por que, mas um pouco diminuída, vendo um símbolo que me faz sentir brasileira (um cocar!!) exposto ali explorado pelo seu exotismo. Me senti uma índia, dá pra imaginar? Mas uma índia excluída da festa, carente do tal exotismo cultuado e, por que não dizer?, cultivado! Uma “exonêmica”, eu. Pelo menos ali, aos pés do Grand Palais.
Fora dali não. Fora dali me sinto mesmo em casa, dando conta da rotina classe média de qualquer lugar do mundo. O que muda são os produtos e os preços. Tenho me sentido muito bem aqui, menos estrangeira, por incrível que pareça, do que me senti em Portugal. Talvez porque tenha vindo pra morar, ao invés de ir entrando e saindo com uma velocidade alucinante da vida das pessoas e, por sua vez, das cidades também. Nesse início eu vejo que basta o sentimento pra dar o tom do como vamos apreender um novo mundo. Todo o resto se desenrola a partir desse diapasão. E eu joguei a toalha. Deixei os Arcos do Triunfo pros franceses ficarem circundando feito alucinados em suas motonetas, fiats e fords. Me lancei no buraco do metro Franklin Roosevelt, que pelo nome parecia significar algo, mais precisamente um péssimo sinal. Devia voltar correndo para o outro lado da cidade.
No “buraco” parei pra ver o mapa e descobrir a conexão que era preciso fazer: Strasbourg-St. Denis, depois Chatelêt (um dos grandes entroncamentos de trem e metrô) e de lá pegar o RER B (RER é o trem, B é a direção da minha casa) para a Porte de Gentilly, que passa pela Cité. Parece difícil, não sei que imagem fica na cabeça de vocês, mas não é não. Nem demorado. É um pulo. Eu agora estou me entendendo melhor com a estação de Chatelêt. Ela é cheia de corredores, entradas, escadas de alvenaria e rolantes, esteiras rolantes, gente surgindo por todos os lados. Mas não existem grandes espaços nela. São corredores e subidas e descidas, pois dali saem comboios pra tudo que é canto. E é um calor infernal. Eu acho que essa fama do francês fedorento vem daí: do lado de fora é frio, e dentro de qualquer lugar existe chauffage, o aquecimento, que nos obriga a um breve strip-tease. E é esse tira e põe o tempo todo, um suadouro louco, e depois um frio de avermelhar nariz.
Já no RER, um sujeito batia no vidro da janela e cantava alto, excitado. Atrás dele, uma mulher que o olhava de maneira fulminante. Mezmerizei-me por aquele olhar, você compreende? Senti que dali sairia algo. Não demorou e ela soltou um gutural “S’il vous plaît”! E depois outro: “S’il vous plaît, monsieur!”. O cara afundou o pescoço no ombro. Ou, pra dizer em francês: “il a plongé son cou dans ses époules ». Gostei dessa atitude, dessa inquietude, dessa impaciência, dessa demonstração pública de irritação. Ça me fait plaisir. Porque sou meio assim, mas até então exercitei demasiadamente a contenção desse tipo de sentimento que trago em mim. Quase chegando aqui, já na estação Cite, vi um casal se amassando no canto da roleta, rostos quase inexpressivos, como nos dramas franceses – ou com a densidade muda do Último Poema do Bandeira. Dois segundos depois eles estavam atrás de mim, porque deixei cair no chão, ao sacar a carte orange, o cartão que me serve de chave de casa. C’est tout.






